EUA adotam corte de emissões; Brasil revê meta

Na retomada pelos EUA do protagonismo em temas ambientais, o presidente Joe Biden assumiu ontem, na abertura da cúpula do clima, uma nova e ousada meta: a de reduzir pela metade a emissão de gases do efeito estufa até 2030. O objetivo era pressionar outros dos 40 países que participam do evento a replicar o gesto. Conseguiu concessões de aliados como Japão e União Europeia. Índia e China não assumiram compromissos novos. O presidente Jair Bolsonaro, criticado pela política ambiental de seu governo, adotou tom mais conciliador e tentou passar a imagem de uma gestão comprometida com a preservação das florestas. Apesar de ter ignorado em seu discurso os recordes de desmatamento, ele propôs antecipar para 2050 o prazo para o Brasil zerar as emissões de gases do efeito estufa – a meta anterior era 2060. Bolsonaro pediu recursos financeiros para o combate ao desmatamento e as emissões de gases-estufa. Sua fala foi vista com ceticismo por diplomatas e ambientalistas. Potenciais financiadores, americanos e europeus exigem resultados concretos primeiro.

Joe Biden organizou uma cúpula do clima com 40 líderes mundiais para marcar a volta dos EUA à posição de líder global em matéria ambiental, deixando para trás os anos de isolamento de Donald Trump. Ontem, logo na abertura, o presidente americano anunciou uma nova meta ousada de reduzir pela metade a emissão de gases do efeito estufa até 2030. O objetivo era pressionar outros países a replicar o gesto. Conseguiu concessões de alguns aliados, como Japão e União Europeia, mas ficou no vácuo com relação a outros. Índia e China, grandes poluidores e consumidores de energia, por exemplo, não assumiram nenhum compromisso novo.

Para os brasileiros, o momento mais aguardado era o discurso de Jair Bolsonaro. O Brasil, que sempre teve protagonismo na geopolítica climática, desde a Rio-92, vem sendo criticado por sua política ambiental, principalmente em razão da devastação da Amazônia. A fala de Bolsonaro durou pouco mais de 7 minutos. Nela, o presidente adotou um tom conciliador e tentou passar a imagem de um governo comprometido com a preservação das florestas e das comunidades indígenas. Apesar de ter ignorado os recordes atuais de desmatamento, ele propôs novidades, como antecipar para 2050 o prazo para o Brasil zerar as emissões de gases do efeito estufa – a meta anterior era 2060.

O discurso de Bolsonaro foi recebido com ceticismo por especialistas e diplomatas, que desconfiam da súbita conversão do presidente brasileiro ao ativismo ambiental. Um dos pontos que levanta mais suspeita da comunidade internacional é o pedido do Brasil de recursos financeiros para combater o desmatamento e as emissões de gases-estufa. “É preciso haver justa remuneração pelos serviços ambientais prestados por nossos biomas ao planeta como forma de reconhecer o caráter econômico das atividades de conservação”, afirmou. No entanto, os donos do dinheiro, principalmente americanos e europeus, continuam exigindo resultados concretos antes de dar a Bolsonaro a chave do cofre.

Especialistas criticam política ambiental brasileira
Em um discurso de quase 7 minutos na abertura da cúpula do clima, o presidente Jair Bolsonaro procurou desenhar um cenário perfeito da proteção ambiental no Brasil. Exaltou a posição “agroambiental”, disse que o País é um dos que menos contribuíram para as emissões de gases de efeito estufa e pediu recursos internacionais.

A retórica foi recebida com total ceticismo. “Bolsonaro passou metade de seu discurso pedindo dinheiro por conta de conquistas ambientais do passado que ele hoje tenta destruir. De forma geral, sai desta reunião da mesma forma que entrou: desacreditado. Seu governo está há 28 meses barbarizando o meio ambiente. Não será um vídeo de t minutos que vai reverter isso”, avalia Marcio Astrini, secretário executivo do Observatório do Clima.

Ao pedir apoio financeiro internacional, Bolsonaro deixou de explicar por que mantém paralisado, há mais de dois anos, mais de R$ 2,8 bilhões doados por Noruega e Alemanha no âmbito do Fundo Amazônia.

“Qual é a credibilidade que o governo brasileiro tem, depois de bloquear um fundo como esse, para pedir dinheiro internacional? Os instrumentos que estavam de pé e funcionavam no País foram meticulosamente destruídos, sem colocar nada no lugar”, disse a ex-ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira. “Não é chantageando que se atrai investimento, é com uma agenda positiva, que mostre compromissos, propostas efetivas, caminhos para o controle do desmatamento.”

“O presidente coloca o financiamento internacional como condição para a política ambiental dar certo e faz promessas.

Fica bastante difícil acreditar que este governo vai levar compromissos nesse sentido adiante”, afirmou Suely Araújo, expresidente do Ibama e especialista em políticas públicas do Observatório do Clima.

A proposta de orçamento enviada pelo governo ao Congresso (PLOA 21) mostra o completo esvaziamento dessas autarquias. O governo propôs cortar, em 2021, nada menos que R$ 118 milhões do Ibama e R$ 119 milhões do ICMBio.

Fonte: O Estado de S.Paulo