Não é só a gasolina: açúcar e exportações deixaram etanol mais caro também

Quem precisar abastecer o carro no posto não vai ter muito para onde fugir: se o preço da gasolina subiu muito, puxado por pressões como o dólar e o preço do barril do petróleo no mundo, o etanol, mesmo sendo produzido no Brasil e em reais, também correu atrás e ficou caro igual.

Em boa parte do país, mesmo com os preços recordes, a gasolina até voltou a ser mais vantajosa do que o biocombustível: a regra de referência é que o litro do etanol, que rende menos, deve custar até cerca de 70% do preço do litro da gasolina para que o consumidor possa percorrer as mesmas distâncias, pelo mesmo custo com um ou com o outro. Essa proporção pode ser um pouco maior ou menor a depender do desempenho de cada carro.

A boa notícia é que os dois combustíveis já começaram a ficar um pouco mais baratos nos últimos dias, embora a revisão, de longe, não compense as altas que ambos já acumularam: só do começo de 2021 para cá, o preço médio da gasolina nos postos do país subiu 19%, enquanto o do etanol subiu 21%. Em um ano, a alta da gasolina é de 27% e a do etanol, de 28%.

Com as arrancadas, tanto a gasolina quanto o etanol estão marcando nas bombas os maiores preços de sua história: a gasolina, que não tinha passado dos R$ 5, é negociada hoje a uma média de R$ 5,45 por litro, podendo passar dos R$ 6 em alguns estados, de acordo com levantamento semanal feito pela Agência Nacional de Petróleo (ANP) em milhares de postos de todo o país.

Já o etanol, que há anos flutuava entre R$ 2 e pouco mais de R$ 3, bateu os R$ 4 pela primeira vez em março, e hoje é vendido a R$ 3,88 o litro, também considerada a média nacional colhida pela ANP.

Os preços podem variar bastante de um estado para o outro, de acordo com os impostos regionais e a distância dos grandes polos produtores.

Com isso, na média, o litro do etanol está custando 71% do preço da gasolina, no limite da margem em que deixa de ser mais vantajoso.

Mais exportação, mais açúcar e menos etanol
A gasolina consumida no Brasil é quase toda produzida pela Petrobras e, desde 2016, segue a política de preços da estatal pela qual os combustíveis vendidos aqui repassam integralmente os custos do barril do petróleo, cotado em bolsas internacionais, e do dólar. Como as duas coisas dispararam do ano passado para cá, a gasolina e o diesel brasileiros acabaram disparando também.

Mas, se o etanol é um produto inteiramente nacional, feito a partir da cana-de-açúcar, e não tem nada a ver com o petróleo, por que ele subiu da mesma forma? A resposta também passa pelo comércio exterior, pelo açúcar e pela própria gasolina.

“O preço do açúcar subiu muito e ainda teve a ajuda do câmbio, enquanto, no mercado interno, houve uma queda significativa na demanda por combustíveis no ano passado”, diz Mirian Bacchi, pesquisadora de etanol do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da Escola de Agricultura da Universidade de São Paulo (Esalq/USP).

“Como o açúcar remunerou mais, o que houve de aumento da produção foi para exportação.” Mirian Bacchi, pesquisadora de etanol do Cepea

O açúcar é negociado em bolsas internacionais e viu seus preços, em dólar, subirem mais de 30% desde o ano passado. Como o dólar também disparou, a rentabilidade para quem vende o produto em reais ficou ainda maior, e o resultado é que boa parte da produção de cana que estava indo para etanol acabou convertida toda para o açúcar.

Essa concorrência do etanol com o açúcar acaba fazendo com que o preço do combustível, vendido aqui dentro para o consumidor brasileiro, acabe acompanhando o do açúcar, que é distribuído pelos produtores brasileiros no mundo inteiro. De acordo com os dados do Cepea, a produção de etanol caiu 8,5% nesta safra no Brasil, enquanto a do açúcar cresceu 44%.

Substituto da gasolina
Além de concorrer com o açúcar, já que é produzido a partir da mesma cana, o etanol também concorre, nos postos, com a gasolina, já que o motorista pode escolher qualquer um dos dois para abastecer. É por isso que o preço de um acaba espelhando o do outro, mesmo que tenham formações de custos completamente diferentes.

“A alta da gasolina gera uma maior procura pelo etanol, o que resulta em aumento de preço”, explica o diretor técnico da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), Antonio de Padua Rodrigues. “No primeiro trimestre, as altas na gasolina geraram uma maior procura do consumidor pelo biocombustível, em plena entressafra, o que pressionou os preços do etanol.”

O auge da safra da cana acontece entre abril e novembro. Com isso, as disparadas no preço do petróleo e da gasolina, que ficaram especialmente mais fortes de janeiro para frente, acabaram pegando as usinas de açúcar e álcool nos meses de baixa da produção. O descompasso ajudou a acelerar ainda mais os aumentos no preço do etanol e deixar o consumidor sem alívio de lado nenhum nas bombas.

Como a nova safra já está começando, ao mesmo tempo em que a demanda por combustíveis voltou a despencar com a ampliação de medidas de restrição em vários estados ao longo de março, os preços já começam também a responder. Desde o pico, há duas semanas, o litro do etanol já caiu em média 7,3%, de acordo com a ANP, enquanto o da gasolina recuou 2,5%.

Fonte: CNN Brasil