Covid põe retomada em xeque, indica BC

Com a demora do governo em vacinar a população, a alta recente de casos de covid-19 coloca em risco a retomada da atividade econômica no Brasil, avalia o Banco Central. Na ata do último encontro do seu Comitê de Política Monetária (Copom) – que terminou com a manutenção da Selic em 2% ao ano –, o BC citou pela primeira vez a possibilidade de uma “reversão temporária” da recuperação econômica.

Apesar desse cenário negativo para a atividade econômica, o texto também indicou a possibilidade de um aumento da taxa básica de juros nas próximas reuniões, em razão de fatores como a elevação da inflação. Isso levou alguns bancos a mudar suas projeções e prever uma alta da Selic já na reunião marcada para março e mexeu ainda com o mercado de câmbio (leia mais nesta página).

A avaliação do BC é de que a alta dos casos de covid-19 em vários países e o aparecimento de novas cepas do vírus afetam a atividade econômica global no curto prazo. No Brasil, especificamente, a autarquia afirmou que os dados econômicos relativos ao fim de 2020 “têm surpreendido positivamente”, mas “não capturam os efeitos do recente aumento no número de casos de covid-19”.

A conclusão do BC, contida na ata, é de que a evolução da pandemia e o fim do auxílio emergencial – que vinham sustentando a recuperação na segunda metade de 2020 – podem levar a “mais gradualismo ou até uma reversão temporária da retomada econômica”. Em outras palavras, o PIB, que subiu 7,7% no terceiro trimestre e deve ter registrado novo avanço no quarto trimestre de 2020, pode iniciar 2021 novamente em queda.

Na sexta-feira, antes mesmo da divulgação da ata do BC, o economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, alertava que o aumento nas restrições de funcionamento do comércio em São Paulo reforçava o viés de baixa para o PIB no início de 2021. Segundo ele, não é possível descartar nem mesmo uma nova recessão.

Levantamento do Projeções Broadcast publicado no dia 18 mostra que o mercado financeiro estima crescimento de 2,5% do PIB no quarto trimestre de 2020, ante o terceiro trimestre. Já a mediana para o primeiro trimestre deste ano é de alta de apenas 0,05%. Neste segundo caso, de 20 instituições consultadas, cinco já esperavam por retração do PIB nos primeiros três meses de 2021.

Por trás do pessimismo, está o entendimento de parte do mercado de que a vacinação segue de forma lenta no Brasil. Até a noite de segunda-feira, 685 mil pessoas haviam sido vacinadas no País contra a covid-19 – muito pouco, considerando os cerca de 150 milhões de pessoas (70% da população nacional) que precisam ser imunizadas para se interromper a circulação do vírus, conforme a versão mais recente do Plano Nacional de Imunização. A visão de uma parcela do mercado é de que, sem a vacina, a normalização das atividades vai demorar.

Caso o PIB de fato recue neste início de 2021, o movimento jogará por terra a chamada “retomada em V” alardeada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, ficando mais próxima de uma “retomada em W”. Neste caso, após crescer no segundo semestre de 2020, a economia voltaria a recuar no primeiro semestre deste ano para, depois, retomar a recuperação.

Cercado pelos números, Guedes já afirmou que a vacinação em massa é “decisiva” para garantir o retorno seguro ao trabalho. Os comentários do ministro sobre a vacinação surgem na esteira das críticas ao governo Bolsonaro, que elevaram a pressão pelo impeachment nos últimos dias.

Juros. Mesmo com a perspectiva de que a covid-19 possa frear novamente a atividade econômica, os dirigentes do BC passaram indicações, na ata, de que a Selic pode aumentar nos próximos meses. Isso porque a inflação segue em aceleração.

Na semana passada, o BC manteve a Selic em 2%, mas eliminou de seu comunicado o chamado “forward guidance” (prescrição futura, no jargão em inglês), que funcionava como uma “barreira técnica” para a alta de juros. O movimento ocorreu após a escalada mais recente de preços no Brasil.

Na ata, parte dos dirigentes do BC indicou que, além da inflação, existe um processo de normalização do mercado de trabalho formal, o que também contribuiria para a alta dos juros. Outros dirigentes, porém, acreditam que as incertezas com a pandemia ainda são grandes. Na dúvida, o BC decidiu aguardar as próximas divulgações sobre “a evolução da pandemia, da atividade econômica e da política fiscal” para avaliar o nível dos juros.

Fonte: O Estado de S.Paulo