Protocolos contra covid limitam produção de motos

22/12/2020

A produção de motos no Brasil deve fechar 2020 com queda em torno de 15% no volume. Mas diferente de outros momentos de crise, neste ano o desempenho negativo não tem origem na falta de demanda, de financiamento ou de insumos. Os fabricantes estão com problemas para atender aos clientes porque as linhas de montagem estão engessadas pelos protocolos de segurança adotados por conta da pandemia da covid-19. E essa situação deve permanecer por todo o primeiro trimestre de 2021.

No acumulado até novembro, a queda na produção era de 14,5%, mas deve crescer um pouco mais em dezembro por conta das férias coletivas neste fim de ano. A pandemia praticamente parou as fábricas de motos instaladas no Polo Industrial de Manaus nos meses de abril e maio, e mesmo depois do retorno seu efeito nas linhas de produção ainda se faz sentir por obrigações como o distanciamento físico entre os funcionários nos vários departamentos ou no entra e sai das fábricas.

Os gargalos surgem principalmente no chamado segmento de “entrada”, os produtos mais baratos. Somando abril e maio não foram produzidas nem 20 mil unidades. A produção do setor estava na casa das 100 mil motos mensais antes da adoção das medidas de restrição que fecharam as montadoras em Manaus, uma das cidades mais atingidas pela covid-19 no início da pandemia.

Marco Fermanian, presidente da Abraciclo, entidade que representa as empresas instaladas em Manaus, diz que somente na modalidade de consórcio o setor voltou a operar em junho com uma fila de 40 mil cotas já contempladas esperando a entrega do veículo. “E a retomada de produção não acontece de uma hora para outra. É preciso algum tempo para voltar a trabalhar com maior capacidade. E dentro de novas normas de trabalho para atender aos protocolos de segurança. Some-se a isso o tempo de transporte da moto de Manaus para regiões como Sudeste e Sul. E a logística dos insumos que precisam chegar ao polo. Hoje os estoques nas revendas estão baixos e vamos continuar assim pelo menos até março”, diz.

O dirigente lembra que em janeiro a produção volta após as férias coletivas e novamente vai precisar de algum tempo para retomar o ritmo. Em fevereiro os feriados de carnaval, mesmo sem as comemorações tradicionais, reduzem a atividade fabril. Então apenas em março o setor deve voltar à normalidade.

Os fornecedores também enfrentaram seus problemas. Fermanian garante que não houve desabastecimento de peças e insumos, mas toda a cadeia sofreu com os efeitos da pandemia e também com a alta do dólar durante o ano. Ele destaca alumínio, aço e borracha como os principais insumos na produção do setor e todas elas têm cotação em dólar. A eletrônica embarcada também utiliza componentes importados e portanto sofre influência do câmbio. “As margens das associadas acabaram apertadas, mas não houve reajuste de preço mais expressivo durante o ano.”

Mas se a covid trouxe gargalos e até aumento de custos ao setor, as fabricantes de motos sentiram durante o ano mudanças de comportamento que colocaram o seu produto em evidência. A maior utilização dos serviços de delivery provocou uma procura maior por motos, principalmente nos grandes centros urbanos. “A perda de emprego em outros setores e o crescimento dos serviços de entregas levou muita gente para essa atividade. E isso levou à necessidade de possuir uma moto”, afirma Fermanian. O que também levou à expansão dos consórcios. Entre 70% e 80% dos consórcios tem prazo superior a 60 meses, atraindo quem tem poucos recursos para outra forma de aquisição da moto.

Outra mudança importante para os fabricantes foi a procura por alternativas ao transporte público. A moto foi uma opção mais barata e pratica para quem não quer mais utilizar o transporte compartilhado na comparação com um carro.

Esses dois fatores explicam a rápida recuperação já a partir de junho. A produção voltou a ficar entre 90 mil e 100 mil unidades por mês, mas não foi suficiente para compensar os meses de abril e maio. No início do ano, a expectativa era crescer 6,1% sobre 2019, atingindo 1,175 milhão de unidades. Até novembro o ano acumulava 888,5 mil motos montadas e não deve chegar a 1 milhão de unidades em 2020.

Para 2021 os desafios ainda são grandes. Fermanian diz que os associados não conseguem definir um cenário para o próximo ano, mas que empatar com 2019 já seria um bom resultado. “A vacina é a maior incerteza”, diz o dirigente. Com uma vacinação em massa eficiente, a economia tenderia a se recuperar mais rápido e poderia até afrouxar um pouco os protocolos de segurança. Sem a vacina, o cenário continua incerto. Outro ponto que atinge diretamente o setor é o fim do auxílio emergencial do governo federal, que vai impactar a vida de muitos brasileiros.

Já o mercado externo não apresenta a menor perspectiva de melhora. O principal mercado para a moto brasileira, a Argentina, não dá sinais de se recuperar de uma crise econômica que há alguns anos derrubou as exportações.

Apesar das incertezas, a Abraciclo mantém o Salão Duas Rodas previsto para 2021. Fermanian diz que tudo vai depender do sucesso da vacina. “O setor está mantendo seus planos de lançamento, o salão e vai em busca dos 2 milhões de unidades como já fizemos no passado.”

Fonte: Valor Econômico