Mercedes exclui Brasil do mapa de produção de carros elétricos

18/12/2020

A evolução dos automóveis para modelos elétricos, que parecia, até aqui, uma tendência de consumo do futuro, começa a afetar o trabalhador brasileiro. Numa análise global sobre onde vale ou não a pena investir na produção das novas gerações de veículos, a direção mundial da Mercedes-Benz decidiu por encerrar a produção de automóveis no Brasil. Isso representa o fechamento da fábrica de Iracemápolis (SP), de apenas quatro anos, uma das mais novas do setor no país e que emprega 370 trabalhadores.

Em entrevista ao Valor, o presidente da Mercedes-Benz Cars no Brasil, Jefferson Ferrarez, afirma que a companhia traçou “metas ambiciosas” para a neutralização de dióxido de carbono e, por isso, decidiu trabalhar só com carros elétricos. Os estudos sobre eletrificação e digitalização veiculares envolveram capacidade e competências de todas as fábricas do mundo. “Ao chegar em Iracemápolis a empresa percebeu que essa unidade não tinha mais viabilidade”, destaca.

A instabilidade econômica agrava o quadro. “A situação econômica no Brasil tem sido difícil por muitos anos e se agravou devido à pandemia, causando uma queda significativa nas vendas de automóveis premium”, disse Jörg Burzer, responsável mundial pela produção e cadeia de suprimentos e membro do conselho da Mercedes-Benz AG, em nota que a montadora alemã distribuiu à imprensa ontem, depois de dar a notícia aos empregados, sindicato, fornecedores e governos federal, estadual e municipal.

“Crédito de IPI não recebido não foi fator decisivo para o fechamento, segundo a direção da montadora”

Manter essa fábrica ativa para produzir novas gerações de veículos demandaria um novo ciclo de investimentos, segundo Ferrarez. Mas, à inauguração da unidade, em 2016, seguiram-se anos de dificuldades econômicas. “E com a grande desvalorização da nossa moeda, o custo ficou mais elevado”, destaca o executivo.

Resultado de um investimento de € 200 milhões, a fábrica da Mercedes em Iracemápolis não recebeu incentivos fiscais, segundo a direção da montadora. Mas faz parte da onda de investimentos em fábricas de carros de luxo, definidos a partir de um programa automotivo federal, o Inovar-Auto, que incentivou a produção ao impor penalidades à importação.

Como forma de proteger a indústria local, o programa estabeleceu, como penalidade, a cobrança de taxa adicional de Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) em carros importados por marcas que não produzissem no Brasil. Cinco anos depois, a cobrança foi revogada, por exigência da Organização Mundial do Comércio (OMC).

O governo federal comprometeu-se a devolver às empresas o dinheiro relativo a tributos extras pagos durante a construção das fábricas. Além da Mercedes, BMW e Land Rover ergueram instalações em Araquari (SC) e Resende (RJ), respectivamente. A Audi instalou uma linha na fábrica da Volkswagen em São José dos Pinhais (PR), a mesma que ambas haviam compartilhado anteriormente.

Mas os créditos de IPI ainda não foram devolvidos. Há três meses, o presidente da Audi no Brasil, Johannes Roscheck, disse que estava na luta pela produção de novos modelos no Brasil. Mas que “é difícil convencer a matriz a realizar um investimento desse porte num país onde o governo não cumpre seus compromissos”. A linha de produção do Audi A3, no Paraná, encerra-se este mês. Ontem a empresa informou, por meio da assessoria, que ainda não tomou nenhuma decisão sobre o futuro da operação no país.

Ferrarez afirma que, embora a Mercedes tenha crédito de R$ 70 milhões do IPI pago a mais, não foi esse o fator decisivo para o encerramento da produção no país. “Isso complicaria uma decisão de investimento; mas não é o motivo da decisão tomada”, diz.

O executivo concorda, no entanto, que a penalidade fixada no Inovar-Auto – que acrescentava 30 pontos percentuais no IPI dos modelos importados de regiões com as quais o Brasil não tem acordos de livre comércio -, foi um estímulo importante para os projetos de novas fábricas. “A economia estava bombando e as marcas do segmento premium perceberam que se não fizessem fábricas teriam as vendas muito limitadas.”

Esta será a última semana de produção do sedã Classe C e o utilitário esportivo GLA em Iracemápolis. Esses veículos saem de linha. Os funcionários entrarão em férias coletivas de três semanas. Nesse período, começarão as negociações da empresa com o Sindicato dos Metalúrgicos de Limeira, que representa a base dos empregados da Mercedes. Não há prazo para o término das negociações.

A empresa prepara-se para negociar um programa de demissões voluntárias e a possibilidade de transferência de trabalhadores para a fábrica de caminhões e ônibus, em São Bernardo do Campo (SP), a operação mais forte da Mercedes no Brasil. Em São Bernardo, a montadora tem 8,5 mil funcionários. A companhia alemã também produz cabines para caminhões em Juiz de Fora (MG) e a van Sprinter na Argentina. O futuro da instalação industrial de Iracemápolis ainda não foi definido.

Ferrarez trabalha na Mercedes desde que era aprendiz, em 1989. Passou por diversas funções nas áreas de planejamento, produção e qualidade. Mas há apenas 45 dias assumiu o novo cargo.

Apesar da frustração com a necessidade de encerrar a atividade na fábrica, o executivo demonstra empolgação com a continuidade da venda de carros importados da marca no país. A Mercedes é a segunda das três alemãs que atuam no chamado segmento “premium” no país. A BMW é a líder e a Audi a terceira. O segmento de carros de luxo inclui também a sueca Volvo, que recentemente ultrapassou a Mercedes em vendas e que não construiu fábrica no país.

O Sindicato dos Metalúrgicos de Limeira convocou uma assembleia para a próxima terça-feira para discutir a decisão da montadora ou, como o diretor da entidade, José Carlos, ironizou por meio das redes sociais, “o presente de Papai Noel que a Mercedes deu aos seus trabalhadores”.

Fonte: Valor Econômico