Falta de insumos e aumento de casos de Covid-19 elevam risco de paralisação das montadoras

Falta de insumos, matérias-primas e peças pode levar a indústria automobilística a paralisar a produção em dezembro. O alerta foi feito pelo presidente da Anfavea, Luiz Carlos Moraes, durante a apresentação dos números de novembro do setor.

Segundo ele, o aumento de casos de Covid-19 no país também é um fator de risco à fabricação e às vendas de veículos no último mês do ano.

— O risco é imediato de parada, já nesta semana. E isso afeta toda a cadeia, não só veículos, mas também máquinas, caminhões e ônibus – alertou o presidente da Anfavea.

Segundo ele, já houve ‘microparadas’ dos fornecedores de falta de insumos e componentes em outubro. As montadoras estão trabalhando junto aos fornecedores no sentido de mitigar o risco de uma paralisação.

Algumas montadoras estão trabalhando sábados e fazendo horas extras para compensar essas paradas.

Mas o presidente da Anfavea lembra que há um descompasso na produção, com falta de insumos, após a queda brutal nos meses de maio e junho e a retomada do setor a partir de agosto e setembro.

No final de março, a indústria automobilística já havia paralisado suas fábricas após o crescimento da pandemia. Quase todas as plantas de veículos pararam e as concessionárias fecharam.

Em abril, a produção despencou 99%, chegando ao menor nível da história da indústria no país. A retomada começou em maio, depois que medidas de prevenção à Covid-19 foram tomadas.

Mas toda a cadeia acabou sendo afetada, com falta de matérias-primas como borracha, aço, termoplásticos e pneus. Muitos desses materiais são importados, o que acabou reduzindo a oferta.

– E a falta de peças pode trazer custo adicional. Por exemplo, mudando a forma de transporte de navio por avião – afirmou.

Impacto no PIB
No terceiro trimestre, a indústria, ao lado do comércio, puxou a retomada do PIB, que se expandiu 7,7%. A indústria cresceu 14,8%, embora o setor automobilístico ainda esteja trabalhando em níveis abaixo do período pré-pandemia. O setor tem peso de 5% no PIB total e cerca de 22% no PIB Industrial.

Uma nova paralisação, mesmo que parcial e de curto prazo, pode ter impacto negativo no PIB.

– Certamente uma nova parada no final de ano tende a afetar o desempenho da indústria pela importância que o setor automobilístico tem. Além da pressão da falta de produto, há o efeito inflacionário também, pois a estrutura de custos muito pressionada faz com que as empresas acabem por repassar parte dessa pressão.

De certa forma já temos visto isso no caso de automóveis, que tem muitos componentes com commodities metálicas, que tiveram alta forte esse ano – diz o economista-chefe da MBA Associados, Sergio Vale.

A desvalorização do real frente ao dólar, de mais de 30% no ano, já está levando a um aumento de preço dos veículos, diz a Anfavea.

Ele observa que a volatilidade cambial atrapalha o planejamento. Além disso, lembra que o IGP-M já subiu 24,5% este ano, e essa alta também impacta os fornecedores.

Só o aço teve reajuste de 30% — e um terço da produção das siderúrgicas do país é destinado à indústria automobilística.

— Há itens que já subiram entre 40% e 50%. Estamos negociando para reter os custos, mas está difícil segurar os repasses de preços ao consumidor.

Essa alta de preços também dificulta a recuperação do setor. Cada montadora tenta administrar sua dor, levando em consideração o segmento e o modelo para fazer o repasse — disse Moraes.

Moraes citou casos de contaminação por Covid-19 em fornecedores de peças na Inglaterra, ja nesta segunda onda de contaminação da doença, afetando a produção local e a logística de material importado.

— Estamos tentando encontrar o melhor caminho para esse problema, mas isso leva tempo, pode ser um mês, dois meses.

Uma possível paralisação em dezembro pode afetar não só vendas, como também as exportações. Nosso estoque está baixo (16 dias), e está difícil produzir mais — afirmou.

Moraes disse que, no Brasil, as montadoras estão reforçando suas medidas preventivas contra a Covid-19, mas não descarta que novos casos entre trabalhadores do setor também possam afetar a produção e as vendas.

– A sociedade está relaxando nas medidas de proteção. Nem terminamos a primeira onda e já estamos entrando na segunda de contaminação – disse.

Reportagem do GLOBO mostrou que as empresas estão aumentando a testagem entre seus funcionários, entre elas montadoras como a Volkswagen e a Toyota

Procuradas, as montadoras General Motors, Scania e Volkswagen não comentaram casos específicos de paralisação por falta de insumos.

A Ford informou que sua produção está normal. A Fiat Chrysler FCA informou que não trabalha com um cenário de desabastecimento de peças e mantém as fábricas de Betim, em Minas Gerais, e Goiana, Pernambuco, com suas linhas de montagem funcionando em dois e três turnos, respectivamente.

Fonte: O Globo