No 1º dia do Pix, usuários esperam horas por transferência, que seria feita em 10 segundos

O Pix começou a funcionar às 9h desta segunda-feira e já apresenta queixas de usuários nas redes sociais. Apesar de ter sido lançado com o objetivo de efetuar transferências de forma instantânea, clientes de bancos e fintechs têm encontrado problemas ao realizar uma operação pelo novo sistema de pagamentos do Banco Central. Houve quem esperou mais de sete horas para concluir uma transação.

O jovem Mateus de Souza Itacarambi, de 19 anos, está com dificuldades para receber o valor da primeira operação que fez pelo sistema. Ele tentou transferir o valor do auxílio emergencial, retido na sua conta do aplicativo do Caixa Tem, para uma conta do Mercado Pago.

A mensagem do aplicativo da Caixa dizia que houve um erro na operação e pedia para que fosse conferido o extrato, mas o saldo permaneceu vazio por quatro horas. Após o longo tempo de espera, o dinheiro retornou para a conta de origem. Mas a transferência, que era o principal, não foi efetuada:

— O ruim foi que o dinheiro não constava em nenhum dos aplicativos, se perdeu pelo caminho. Ficou por quatro horas assim, me senti roubado. Cadastrei a chave no mês passado e me sentia seguro com o sistema, mas aí aconteceu isso — queixa-se.

Procurada, a Caixa informou que “no início desta manhã houve uma intermitência pontual no serviço do PIX e que as operações impactadas serão automaticamente estornadas, sem prejuízo aos clientes”.

“O serviço foi normalizado ainda pela manhã e, até o início desta tarde, já haviam sido cadastradas 170 mil novas chaves e realizadas mais de 200 mil operações”, conclui a nota.

Em nota, o Mercado Pago afirmou que “identificou que o valor da transação mencionada não chegou a sair do Caixa Tem para a conta Mercado Pago e que o valor encontra-se disponível na conta Caixa Tem do usuário”.

“No primeiro dia de Pix, é possível que surjam instabilidades pontuais de envio de dinheiro. O Mercado Pago irá conceder toda a assistência aos usuários que eventualmente tenham relatado esse tipo de dificuldade e reforça que transações com Pix vindas de outras instituições estão sendo compensadas normalmente”, completa a nota.

A auxiliar operacional Stefanie Santos, de 24 anos, fez uma transferência cujo valor demorou quase oito horas até chegar à conta de destino. Ela transferiu por volta das 9h30 uma quantia da sua conta no Nubank para a conta do pai, na Caixa Econômica Federal, mas precisou esperar até as 17h.

— Pensei que o Pix seria ótimo por conta do imediatismo que tanto pregam, mas agora estou bem decepcionada. Era um valor que precisava ser repassado com urgência e só ganhamos dor de cabeça. Foi um alívio receber, mas agora não quero mais usar este modo não — lamenta Santos.

Procurado, o Nubank informou que, no primeiro momento da operação, algumas oscilações são esperadas à medida que o volume de transferências vai ganhando escala.

“A empresa ressalta que o Pix foi implementado em tempo recorde e que está trabalhando dia e noite com o Banco Central e demais participantes do novo sistema para resolver todos os eventuais casos em que o Pix não funcione adequadamente. O Nubank destaca ainda que está confiante que em muito breve todos os inúmeros benefícios estarão disponíveis para todos os brasileiros, sem qualquer fricção para os clientes”, completa a nota.

A enfermeira Lana Priscila Meneses, de 38 anos, cadastrou sua chave no banco Bradesco ainda na fase pré-teste. Com a estreia oficial do Pix, tentou fazer uma transferência para uma conta para um banco digital, mas não conseguiu.

— Tentei mais de cinco vezes e sempre aparece a mensagem de “transação cancelada”. O Bradesco nem reconhece a chave (e-mail) no outro banco. Em compensação, consegui na primeira tentativa em outras instituições — conta Meneses.

Procurado, o Bradesco disse estar operando normalmente com o Pix. “Se, eventualmente, alguma operação não foi realizada ou houve dificuldade para acesso, trata-se de caso pontual. O Banco informa que atendeu algumas demandas de clientes com dúvidas sobre a utilização e todas foram esclarecidas”, conclui a nota.

Além da lentidão e cancelamento das operações financeiras, usuários também se queixam de instabilidade nos aplicativos dos bancos para cadastramento da chave.

BC nega instabilidade nos sistemas
O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, negou que houve instabilidade nos sistemas do Banco Central e confirmou que alguns bancos tiveram operações que não foram completas

— Tem um volume maior que não conseguiu ser completo em um banco ou outro. A gente monitora sempre isso, a gente tem conversado com os bancos. Quando vemos algum banco específico durante uma fase ou período do dia teve um número maior de operações rejeitadas a gente entra em contato. Lembrando que é um processo de encontro número, que às vezes são erros simples, como um dígito que não está homogêneo.

Campos Neto disse que o processo ainda está se aperfeiçoando e que a operação nesta segunda-feira já está melhor do que no período de testes.

— Instabilidade do sistema em termos de liquidação não teve nenhuma. Algumas operações não foram completadas? Sim, a gente está tendo aperfeiçoamento ao longo do caminho.

O chefe do Departamento de Competição e Estrutura do Mercado do BC, Angelo Duarte, disse que alguns problemas foram detectados, mas que é normal, principalmente quando grandes instituições começam a operar com um grande número de clientes.

— A gente entende que ali no início da operação poderia haver problemas com algumas instituições específicas. Isso já passou, tá todo mundo operando muito bem dentro dos parâmetros de qualidade.

O diretor de Organização do Sistema Financeiro e Resolução do BC, João Manoel Pinho de Mello, disse que uma fração significativa dos erros, das operações rejeitadas, foi porque houve uma tentativa de fazer um Pix para um destino que é uma conta salário, que por regulamentação não está dentro do novo sistema de pagamentos.

— Cada vez mais quando houver mais uso das chaves, essas operações que são rejeitadas, não completadas, vão diminuir porque, por exemplo, você nem consegue cadastrar uma chave associada a uma conta salário.

De acordo com Duarte, com o passar do tempo e com os clientes se acostumando a usar o Pix, essas operações rejeitadas vão diminuir. Ele deu um exemplo de clientes colocando informações erradas para fazer o Pix.

— Muitas vezes o usuário está fazendo a primeira utilização do menu do Pix na sua instituição e não se sustenta que ali existe uma opção entre conta corrente e conta poupança. Muitas vezes ele vai fazer uma operação para uma conta poupança, mantém a opção de conta corrente e ao fazer a operação, ela é rejeitada. O uso da chave vai acabar com todas essas dificuldades, porque uma vez que a chave for cadastrada todas as informações corretas daquela conta já estarão contidas.

Fonte: O Globo