Usinas de etanol querem substituir baterias em carros elétricos

16/11/2020

Aos 45 anos do programa Proálcool, o setor de cana-de-açúcar busca se lançar como alternativa às baterias no processo de eletrificação da frota mundial de veículos. A ideia é vender o modelo de célula combustíveis como uma opção mais barata e menos poluente.

O programa que tornou o Brasil uma referência no uso de biocombustíveis para automóveis foi lançado no dia 14 de novembro de 1975 e, apesar de percalços pelo caminho, chega aos 45 comemorando a criação dos créditos de descarbonização e tentando encontrar seu espaço numa eventual popularização do carro elétrico.

“A mobilidade desse século vai ser plural, com uma pluralidade de rotas tecnológicas”, diz o presidente da Unica (União da Indústria de Cana de Açúcar), Evandro Gussi. “E nesse aspecto, consideramos o etanol um combustível não só do presente, mas do futuro.”

Disseminado no Brasil a ponto de praticamente banir o carro a gasolina do mercado —em 2020, apenas 3,1% dos carros licenciados no país usam exclusivamente o derivado do petróleo— o etanol enfrenta o desafio de competir com a crescente busca pela eletrificação da frota, que já concentra grandes incentivos em países desenvolvidos.

As rotas tecnológicas mais usadas no momento ou reduzem a demanda por combustíveis, no caso dos híbridos, ou simplesmente eliminam a necessidade de combustíveis líquidos, como no caso dos veículos 100% elétricos. O setor defende, porém, que a célula combustível que produz hidrogênio a partir do etanol é mais eficiente. A tecnologia, que ainda não tem produção em escala comercial, consiste em separar o hidrogênio do etanol e produzir eletricidade por meio de um processo químico realizado dentro do próprio veículo ou em postos de gasolina.

O setor defende que o modelo reduz a necessidade de grandes caras baterias e evita a geração de energia por fontes fósseis para carregar os veículos. Além disso, poderia usar a infraestrutura de distribuição de combustíveis já instalada, sem necessidade de aportes em pontos de carregamento e na rede de distribuição de eletricidade.

“A questão da carga é muito complicada. Ela é demorada e, para acelerar o processo, precisa de potência muito alta nos postos de gasolina, o que demanda investimento na rede”, diz Luiz Augusto Horta Nogueira, pesquisador Núcleo Interdisciplinar de Planejamento Energético da Unicamp.

Horta, que já foi diretor da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis), acredita que o modelo de células combustíveis deve ganhar espaço no mundo, principalmente nos maiores países, onde as distâncias percorridas prejudicam a opção pela bateria e a rede de energia é maior.

Enquanto a tecnologia não está disponível, o setor vem incentivando no Brasil a opção pelo híbrido flex, que usa gasolina e etanol em conjunto com um motor elétrico. Em 2019, a Toyota lançou o primeiro modelo do Corolla com essa tecnologia.

Os elevados preços ainda fazem dos carros elétricos um produto exclusivo para classes de maior renda, mas o setor espera uma renovação gradual da frota até a chegada da nova tecnologia, que vem sendo testada desde 2016 em um protótipo da Nissan.

“O Brasil tem todas as perspectivas para se transformar no grande centro de pesquisa e desenvolvimento de eletrificação a partir de célula combustível a etanol”, diz Gussi, da Unica, lembrando que o incentivo dado pelo programa Proálcool levou o país ao pioneirismo na difusão dos carros bicombustíveis.

O programa foi criado em 1975, mas a adoção do etanol como combustível veicular vem desde 1931, quando o governo Getúlio Vargas determinou a mistura de até 5% do biocombustível na gasolina. Entre 1931 e 1975, diz Horta, a mistura média ficou em torno de 7,5% —hoje são 27,5%.

A criação do Proálcool teve como objetivo reduzir a dependência nacional de derivados de petróleo em meio aos choques de oferta dos anos 1970. Mas, nas últimas décadas o setor vem sendo impulsionado pela preocupação cada vez maior com as emissões de gases poluentes e seus efeitos sobre o clima.

Em 2017, o governo Michel Temer lançou o Renovabio, programa que obriga as distribuidoras de combustíveis a compensar, pela compra de créditos de carbono, as emissões provocadas pelos derivados de petróleo que vendem.

O programa foi judicializado esta semana por uma associação de distribuidoras que alega não ter condições de cumprir as metas de aquisição de créditos após a pandemia, mas o setor espera que a liminar seja derrubada e diz que os recursos são importantes para o fomento a novas tecnologias de biocombustíveis.

Em outra frente, trabalha para disseminar a produção de etanol no mundo, com transferência de tecnologia, para cumprir um objetivo antigo de tentar fazer do etanol uma commodity global. “Antes de exportar etanol, nós queremos que o etanol seja produzido em outros lugares do mundo, para que o mundo sinta segurança”, diz Gussi.

O coordenador da FGV/Agro e ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues, diz que o cenário é favorável e que o setor vem se recuperando de sua última grande crise, provocada pelo represamento do preço da gasolina durante o governo Dilma Rousseff, que levou ao fechamento de usinas e demissões em massa.

Em outra crise, provocada pela queda do preço do petróleo e a falta de recursos para incentivos no Brasil na virada dos anos 1990, a quebra de confiança do consumidor praticamente pôs fim à produção de carros exclusivamente a etanol no país.

“O setor está começando a sair da crise, o açúcar vem num preço bom, a demanda por etanol começando a aquecer novamente e a Índia começou a perder espaço no mercado por questões climáticas”, enumera. “Tem um cenário sócio-econômico que é positivo e de construção.”

A vitória do democrata Joe Biden, apoiado por organizações que defendem o meio ambiente, nos Estados Unidos é visto como outro sinal positivo para os próximos anos, pelo potencial de incentivo à redução de emissões de gases do efeito estufa.

“O discurso dele é na direção da sustentabilidade. Ora, o etanol é campeão disso”, afirma Rodrigues. “Do ponto de vista programático faz todo sentido apoiar a biocombustível.”

Fonte: Folha de S.Paulo