Stone se ‘arma’ com pareceres para disputar Linx com Totvs

15/09/2020

A empresa de pagamentos Stone abriu um novo flanco na disputa pela Linx e começa a apontar os riscos de concentração no mercado de software para o varejo caso a empresa vá parar nas mãos da Totvs, que fez uma proposta rival.

Valor obteve a íntegra dos pareceres encomendados pela Stone a três economistas especializados em questões concorrenciais, e todos concluem que haverá aumento significativo da concentração nos segmentos em que Linx e Totvs atuam se houver combinação de forças entre elas.

Com esse argumento, a intenção da Stone é mostrar que, se os acionistas da Linx optarem pela oferta da Totvs, poderão enfrentar um caminho árduo no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e existe o risco de o órgão barrar a fusão. Na prática, a mensagem é que a proposta rival embute a possibilidade de não poder seguir adiante.

“Em resumo, esta operação, se ocorrer, será objeto de análise detalhada dos órgãos de defesa da concorrência, algo demorado e trabalhoso. E, além disso, depois da análise, o risco concorrencial é de tal magnitude que a operação será rejeitada ou aprovada com severas condicionalidades”, conclui nota técnica assinada por Claudio R. Lucinda, professor titular da FEA/USP.

De acordo com o parecer, a fatia combinada das duas empresas seria de 59,93% no segmento de ERM, de software para gestão de riscos. Chegaria a 67,63% nos “production apps”, usados pelo varejo, e somaria 36,07% no mercado de CRM para o e-commerce.

O economista Afonso Arinos de Mello Franco Neto, professor da FGV e ex-conselheiro do Cade, destaca que o caso gera aumentos de concentração horizontal “inauditos” na jurisprudência do órgão antitruste. Em seu parecer, ele lembra que a união entre Totvs e Datasul foi aprovada pelo regulador porque, além de promover concentração em magnitude menor, supostamente não implicava barreiras de entrada a competidores. O caso atual, diz ele, é diferente, levando em consideração os chamados “switching costs” no setor. A expressão se refere ao “custo” que o cliente para trocar o fornecedor de determinado serviço uma vez que ele está instalado e em funcionamento. Se o usuário sabe, de largada, que há poucas opções no mercado, ele tem menos poder para negociar as condições e, ao mesmo tempo, há menos incentivo ao surgimento de novos competidores.

Para Leonardo Rezende, professor da PUC-RJ especialista em organização industrial e antitruste, haverá um aumento de concentração “inaceitável” em alguns segmentos de mercado numa combinação entre Totvs e Linx. “Como se trata de um aumento de poder de mercado muito significativo na atividade principal da Linx, me parece improvável que existam remédios que simultaneamente preservem competição nesse mercado e viabilizem a operação. Se consultado, minha recomendação ao Cade seria a de rejeitar um eventual AC Totvs-Linx”, diz.

De acordo com Rezende, não haveria o mesmo dano caso a Linx fosse adquirida pela Stone, pois as duas companhias oferecem serviços complementares e não substitutos. Ele também argumenta que a união dessas empresas poderia até ser benéfica se elas continuassem adotando políticas de ecossistema abertos para o desenvolvimento de novas tecnologias.

O caso também vem sendo acompanhado pela Associação Brasileira de Startups (Abstartups), que reúne entre seus associados empresas do mercado de softwares empresariais. “Fusões e aquisições são positivas porque tendem a gerar outras oportunidades no mercado, mas uma união entre Totvs e Linx gera quase um monopólio e tende a sufocar companhias novas”, afirma o presidente da entidade, José Muritiba, que diz ser imparcial na disputa.

A Linx já apresentou previamente ao Cade duas propostas que recebeu. A da Totvs soma R$ 6,1 bilhões mais multa de R$ 100 milhões caso o órgão não aprove o negócio. A da Stone é de R$ 6,248 bilhões e prevê multa se a operação for rejeitada pelos acionistas.

Valor apurou que a Stone deve levar esses argumentos ao Cade se a Linx ficar com a oferta da Totvs. Procurada, a credenciadora não comentou o assunto.

Fonte: Valor Econômico