Refino: Petrobras se prepara para mercado aberto

27/08/2020

Em meio à abertura do refino, a Petrobras se prepara para lidar com a concorrência no setor. A estatal criou este ano uma diretoria dedicada exclusivamente à área de logística e comercialização e começa a traçar os planos para o horizonte pós-2021, ano em que a petroleira espera concluir a venda de oito de suas refinarias. Ao fim, a empresa passará a se concentrar apenas no eixo Rio-São Paulo. A ideia, porém, é continuar a competir nas demais regiões, via cabotagem, duto e rodovia, por exemplo.

“Vamos atuar nos mercados que pudermos chegar de forma competitiva, criando valor”, disse o diretor de logística e comercialização, André Chiarini, ao Valor

Do ponto de vista logístico, a expectativa é fazer investimentos pontuais, sobretudo na malha de dutos do Sudeste. Segundo o diretor, a Petrobras ainda está se debruçando sobre o planejamento da infraestrutura para o novo contexto de abertura do mercado. Ele antecipa, contudo, que os ativos da companhia são, em geral, suficientes para “atender adequadamente” ao mercado. A estatal também tem planos de participar de novas licitações de terminais portuários.

“Estamos avaliando investimentos para termos ainda mais flexibilidade para conectarmos um pouco melhor a nossa própria malha de dutos”, comentou Chiarini.

Um exemplo desse movimento se deu na refinaria Reduc, em Duque de Caxias (RJ), cujo sistema de escoamento de diesel S10, até então segregado, foi recentemente ligado ao Terminal Aquaviário da Baia da Guanabara. A conexão permitiu à petroleira exportar o produto, por meio de cabotagem, até o Porto de Paranaguá (PR), numa região abastecida pela Repar, uma das unidades que serão vendidas.

Na área comercial, Chiarini disse que a empresa pretende intensificar a realização dos leilões de curto prazo de diesel e gasolina, em áreas de maior concorrência. A companhia recorre a eles quando tem excessos pontuais de estoques – cenário vivido em abril, durante o período mais crítico de contração da demanda – ou quando quer fazer frente aos importadores num determinado mercado.

Em geral, distribuidoras costumam contratar uma parte da sua demanda com a Petrobras e deixar uma “folga” para negociar com importadores em condições de preços melhores. Por meio desses leilões, a estatal costuma dar descontos para empresas interessadas em comprar com ela volumes adicionais, não previstos em contrato. “Temos planos de tornar perenes esses leilões”, afirmou.

A Petrobras aposta também no treinamento da equipe de marketing para um “novo olhar de negócio”. Ao mesmo tempo, a estatal está remodelando a Transpetro, para que a sua subsidiária de transporte se consolide como uma prestadora de serviços para terceiros. A Transpetro está fora do programa de desinvestimentos da petroleira. “Imagino que um potencial comprador de uma refinaria veja com bons olhos a ideia de manter a operação [dos ativos logísticos] sendo executada de forma competitiva pela Transpetro”, disse.

Chiarini assumiu a diretoria em março, em meio à forte contração da demanda global – que impunha à estatal a necessidade de buscar mercado para sua produção e, assim, não interromper suas operações. A missão da pasta, segundo ele, é orquestrar as diferentes logísticas da Petrobras – historicamente cuidadas à parte por diferentes áreas de negócios. Houve, então, um trabalho para coordenar melhor as operações, o que permitiu à empresa bater recorde de exportação de 1 milhão de barris/dia de petróleo em abril. Hoje, se necessário, a logística está pronta para exportar 15% acima disso.

A Petrobras já identificou um potencial de ganho de US$ 500 milhões com a integração logística. Chiarini cita que, no ápice da crise, diante da necessidade de fazer caixa, a estatal reforçou a movimentação de navios aliviadores para recuperar estoques de óleo que estavam fora de especificação, nos tanques das plataformas. Depois de readequá-los, a empresa conseguiu exportar os volumes.

“[Já no comercial] Identificamos junto ao mercado que, naquela fase [de maior contração do consumo interno], era melhor minimizar a produção de gasolina e maximizar produção de óleo combustível e bunker para exportação. Com isso conseguimos ajustar a carga das refinarias e foi possível eliminarmos as restrições que durante 15 dias reduziram nossa produção [em abril]”, exemplificou.

Fonte: Valor Econômico