Disputa pela Linx envolve domínio do setor de varejo

17/08/2020

O domínio do mercado de sistemas de tecnologia para o varejo colocou a Linx no centro de uma disputa entre a credenciadora de cartões Stone e a empresa de softwares de gestão empresarial Totvs. Ambas estão de olho em uma fatia de 45,6% de participação que a Linx registra em um segmento cujo potencial de negócios é estimado em R$ 10,6 bilhões por ano pela consultoria IDC.

A participação da Linx no mercado de sistemas para o varejo cresceu três pontos percentuais no ano passado na comparação com o ano anterior e superou a soma das fatias de mercado do segundo, terceiro, quarto e quinto colocados, de acordo com o estudo.

Atrás da Linx, estão as empresas Locaweb, com receita de R$ 429 milhões, e Sinqia, com R$ 212 milhões

No segmento de comércio on-line, área que vem crescendo a passos largos nos últimos meses devido à pandemia que obrigou o varejo a fechar as lojas físicas, a Linx também vem ganhando participação, mas está na segunda posição com 13,7%. O líder, cujo nome não é informado pela consultoria, possui 20,8% do mercado.

Na terça-feira, a Stone fez uma oferta de R$ 6,045 bilhões pela Linx, sendo 90% em dinheiro e 10% em ações. O preço oferecido é de R$ 33,7625 por ação da Linx, um prêmio de 41,6% sobre a cotação média de 60 dias do papel, ponderada pelo volume.

Nos termos da Stone também foi estabelecida uma multa de R$ 605 milhões se uma das partes desistir do negócio. A Totvs questinou esta cláusula, em especial, chamando-a de “multa abusiva” contratada pela Linx com a Stone,. Esta parte da oferta da Stone, disse a Totvs, seria contrária ao interesse dos acionistas minoritários da Linx.

A proposta inclui uma oferta especial aos três fundadores da Linx – Alberto Menache (também presidente da companhia), Nércio Fernandes e Alon Dayan – e um acordo para que eles não entrem em competição com a nova companhia depois da compra pela Stone.

Na proposta apresentada pela Totvs, que soma R$ 6,103 bilhões, cada acionista da Linx receberia uma ação da Totvs mais R$ 6,20 por ação de sua titularidade, o que somaria R$ 34,97 considerando o fechamento da última sexta-feira a R$ 27,77. Ao fim, os acionistas da Linx teriam 24% do capital total e votante da Totvs.

A Totvs não fez uma oferta especial aos três fundadores da Linx em sua proposta. Isso significa que grandes acionistas e minoritários têm o mesmo tratamento.

Em carta publicada na sexta-feira e destinada ao conselho da Linx, a Totvs afirma que a proposta para a combinação de negócios entre as empresas estava preparada para ser divulgada no dia 11, após a divulgação dos resultados trimestrais da Linx, e que a companhia foi surpreendida pelo anúncio da Linx de combinação de negócios com a Stone, “preferindo não tomar conhecimento da proposta que a Totvs tinha a apresentar”.

A Totvs lidera o mercado de sistemas de gestão empresarial no Brasil com 50,2% de participação e ainda detém 30,1% de presença na América Latina, de acordo com o relatório de resultados da empresa em 2019.

Em novembro de 2018, Dennis Herszkowicz, que atuou por 15 anos na Linx, assumiu a presidência da Totvs no lugar do fundador Laércio Cosentino, que passou a presidir o conselho de administração. A mudança acirrou ainda mais a rivalidade entre as duas empresas.

Caso vença a disputa pela Linx, a Totvs estima uma receita líquida pro-forma consolidada de R$ 3,2 bilhões. “A companhia combinada seria a maior entidade de software como serviço listada na América Latina”, destaca a Totvs em um documento de apresentação do potencial das sinergias com a Linx, ao qual o Valor teve acesso. A proposta da Stone traz uma combinação de receita líquida maior, em torno de R$ 3,6 bilhões.

Na apresentação da Totvs, atrás da Linx estão as empresas Locaweb, com receita líquida pro-forma de R$ 429 milhões, e Sinqia com R$ 212 milhões em receita líquida pro-forma. O interesse em torno da Linx cresceu de tal forma, com as propostas de Stone e Totvs, que as atenções aos passos de Locaweb e Sinqia devem, naturalmente, também aumentar.

A Totvs também apresenta no documento uma previsão da IDC de que o mercado de software como serviço tenha um crescimento de 22% na América Latina, nos próximos três anos.

Ao falar sobre sua visão para a sinergia com a Linx, a Totvs destaca três frentes: a primeira uniria a oferta de sistemas de gestão, sistemas para recursos humanos e para outras áreas da Totvs relacionadas a sistemas de gestão e pontos de venda da Linx. Na área financeira, seus sistemas para crédito entre empresas e pagamentos seriam complementados pelos softwares da divisão Pay Hub da Linx, incluindo transferências entre fundos e sub-adquirência). Finalmente, a frente de vendas e marketing da Totvs acrescentraria ao portfólio os sistemas da Linx Digital incluindo comércio eletrônico e vendas por múltiplos canais (“omnichannel”, no jargão do mercado).

Sobre a proposta da Totvs que será avaliada, a Linx informou, por meio de um comunicado na sexta-feira que “a administração da Linx procederá em acordo com seu dever fiduciário e analisará a nova oferta, por meio de processo formal a ser conduzido sob responsabilidade exclusiva de seus conselheiros independentes.”

A Stone, por sua vez, destaca, em sua apresentação sobre o potencial do negócio, que a Linx ampliaria sua oferta de serviços financeiros para pequenas e médias empresas – incluindo seu sistema integrado de adquirência, crédito e bancário para transações financeiras – passando a contemplar os softwares de gestão e ponto de venda para automação em processos de negócios junto a clientes de médio e grande portes.

A Stone também prevê ampliar sua base de clientes de 283 mil, no primeiro semestre do ano, para mais de 375 mil na segunda metade de 2020, caso a proposta de aquisição avance.

Fonte: Valor Econômico