Brasil segue tendência global de expansão do dinheiro em circulação

05/08/2020

O Brasil segue uma tendência mundial de aumento de dinheiro em circulação na economia depois da pandemia do coronavírus, com uma alta de 35% do volume de papel-moeda em poder do público no período de 12 meses até junho. Apesar dos receios de que a impressão de novas cédulas, como a de R$ 200, possa alimentar a inflação, especialistas dizem que isso não deve acontecer, desde que o Banco Central siga apenas atendendo de forma passiva a demanda por dinheiro da população.

“A demanda por moeda sobe diante do aumento da incerteza”, afirma o economista José Júlio Senna, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da FGV, autor de um livro que traça a evolução da história e teoria da moeda desde a Antiguidade aos dias atuais. “Com a pandemia, a incerteza atingiu o seu limite.”

Depois que a inflação foi debelada na maior parte do mundo (com algumas exceções, como Venezuela e Argentina), o volume de dinheiro em circulação nas economias vinha crescendo com velocidade mais ou menos estável. Com a pandemia, no entanto, houve uma aceleração. Nos EUA, por exemplo, o crescimento do papel moeda em poder do público em 12 meses passou de 4,5% para 11,3%, antes e depois do coronavírus; no Japão, de 2,5% para 3,9%; no Canadá, de 3,5% para 7,8%; e, no México, de 5% para 16,4%. No Brasil, a expansão passou de 6,6% em fevereiro para 27,3% em maio, mas os dados já disponíveis para junho apontam velocidade de 35%.

“É um aumento de demanda por moeda, que acontece em situações de incerteza como a atual”, diz o professor Márcio Garcia, da PUC-Rio. “Eu fui ao banco e saquei dinheiro para guardar numa gaveta. Antes, eu tinha zero. Imagino que outras pessoas fizeram o mesmo, assim como fizeram com papel higiênico ou com o álcool em gel.”

Senna diz que a lógica de sacar recursos é evitar ir muitas vezes ao banco, minimizando o risco de contágio. “É uma preocupação com a saúde”, afirma. No Brasil, o aumento do dinheiro em circulação também está relacionado ao programa de transferência de renda do governo.

O volume aumentou em R$ 54,698 bilhões desde o início da pandemia, passando de R$ 215,559 bilhões no fim de fevereiro para R$ 270,257 bilhões no fim de junho. Muitos têm manifestado em conversas e nas redes sociais receios com o risco de aceleração da inflação.

A relação entre o volume de dinheiro e a inflação é uma das bases da teoria monetarista, cujo maior expoente é o economista Milton Friedman. Essa escola perdeu terreno nas últimas décadas porque, na prática, a evolução dos agregados monetários deixou de ter uma relação estável com a inflação. Ainda assim, dependendo da situação, dinheiro demais pode significar alta generalizada de preços.

“Friedman consolidou a ideia de que a inflação se acelera se há dinheiro demais correndo atrás de bens e serviços de menos”, afirma Senna. “A própria teoria de Friedman dizia que o movimento de acúmulo de oferta [de dinheiro pelos BCs] é inflacionário se o público não quiser absorver essa moeda adicional.”

Assim, a inflação tende a se acelerar se o governo injeta ativamente moeda na economia – em geral para financiar os seus déficits públicos – sem que o público deseje absorvê-la. Foi o que ocorreu no Brasil na época da hiperinflação. Mas se o volume de dinheiro aumenta respondendo à demanda por moeda, não há inflação. Foi o que aconteceu no Plano Real, quando as pessoas passaram a carregar mais dinheiro no bolso porque a moeda já não perdia valor tão rápido.

O BC anunciou na semana passada que vai imprimir 450 mil das novas cédulas de R$ 200, que terão estampada a figura do lobo guará. Em termos financeiros, isso equivale a fabricar R$ 90 bilhões. O dinheiro não deve entrar em circulação de uma vez, mas apenas de acordo com o aumento da demanda. “O BC atende de forma passiva à demanda por dinheiro”, disse a diretora de administração do BC, Carolina de Assis Barros, na entrevista que anunciou a nova cédula.

“Não haverá impacto na inflação, pelo contrário”, diz Garcia. Uma das consequências do aumento do dinheiro em circulação é que o Tesouro terá um financiamento mais barato de sua dívida, já que não paga juros sobre moedas emitidas. “Se esse aumento de moeda for para sempre, o BC terá um ganho permanente e vai transferir para o governo”, afirma Garcia. “Se for temporário, vai pagar menos juros durante algum tempo, o que também é um ganho. Eu acho que vai ser temporário. Não pretendo ficar com dinheiro guardado na gaveta para sempre.”

Fonte: Valor Econômico