Opinião: A covid-19 vai pôr fim ao dinheiro?

28/07/2020

Quatro anos atrás, Kenneth Rogoff, um ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI) fez uma defesa enfática da extinção gradual do papel-moeda. Em seu livro “A maldição do dinheiro”, Rogoff argumentou que o grande volume de papel-moeda em circulação, especialmente de cédulas de valor elevado, facilita a evasão fiscal e alimenta o tráfico de drogas – em toda a cadeia de fornecimento: um estudo britânico de 1999 constatou que apenas quatro de 500 notas testadas em Londres não tinham vestígios de cocaína.

Além do mais, a existência do dinheiro limita a política monetária. É mais difícil para os bancos centrais implementar taxas de juros negativas quando os investidores possuem a alternativa de manter um cofre cheio de notas de US$ 100. Isso pareceu um ponto obscuro para alguns na época, mas a crise de covid-19 colocou de uma maneira resoluta os juros negativos na agenda política de vários países, embora ainda não nos Estados Unidos.

Desde as anotações de Rogoff, o papel-moeda vem perdendo força como mecanismo de pagamento. Na Suécia, por exemplo, o fim da coroa no papel parece estar à vista. O sistema de pagamentos móveis Swish domina o cenário de notas de pequenas denominações. Como sabe qualquer pessoa que recentemente tentou comprar uma cerveja em Estocolmo, você continuará com sede se tudo que tiver for uma carteira cheia de dinheiro.

E a crise de covid-19 está dando às pessoas mais um motivo para ficarem longe das cédulas de papel. É de conhecimento público que o vírus pode ser transmitido pelo manuseio de dinheiro, o que está levando muitos estabelecimentos comerciais a colocarem avisos “no cash”. Em minha cidade, até mesmo a van que faz entrega de “fish and chips” agora só aceita cartão sem contato. Na verdade, há pouca ou nenhuma validade nessa história de terror. A Organização Mundial da Saúde (OMS) já disse que não há evidências de que as cédulas de dinheiro transmitem o coronavírus. O vírus tem a mesma duração nos cartões de plástico e Christine Tait-Burkard, uma especialista em doenças infecciosas da Universidade de Edinburgo, diz que o dinheiro não é um vetor da doença, “a menos que alguém espirre numa cédula”.

Mas o dano está feito e no primeiro mês da crise o uso de papel-moeda no Reino Unido caiu mais de 60%. Os volumes transacionados caíram à metade. Uma pesquisa mostrou que quase 75% dos participantes disseram que pretendem usar menos papel-moeda no futuro.

Essa tendência, que vem se repetindo em todo o mundo desenvolvido, deu um empurrão adicional às atividades bancárias digitais e aos provedores não bancários de sistemas de pagamento. Apple Pay e PayPal estão se saindo bem. Os “neobanks fintechs” continuam ampliando suas bases de usuários, embora muitos questionem se eles já encontraram um modelo de negócios sustentável. A libra, a moeda do Facebook, ainda não decolou, com seus defensores tentando convencer as autoridades reguladoras de que seu modelo é seguro e alinhado aos protocolos de combate à lavagem de dinheiro.

O maior declínio do papel-moeda também vem dando um ímpeto maior ao trabalho dos bancos centrais sobre as moedas digitais. Por meio das cédulas, cidadãos e empresas há séculos conseguem ter uma ação direta sobre o banco central. Se o papel-moeda desaparecesse, isso não seria um argumento a favor da moeda digital de um banco central, seja no atacado, no varejo ou ambos?

O Banco de Compensações Internacionais (BIS) informa que vários bancos centrais estão considerando ativamente a introdução da moeda digital, embora nenhum deles tenha mergulhado nisso de cabeça até agora. O Riksbank da Suécia poderá ser o primeiro, com a coroa eletrônica pronta para ser lançada.

Portanto, isso é um adeus para o dinheiro na mão? Será que até mesmo a “greenback” vai morrer?

A resposta não é tão clara. Em primeiro lugar, embora o número de transações realizadas por transferências de dinheiro esteja de fato caindo, até mesmo no segmento inferior, o volume de dinheiro em circulação na verdade continua aumentando em muitos países. Desde o fim do ano passado, segundo o BIS, o valor da moeda em circulação aumentou 8% na Itália e 7% nos EUA. A manutenção de dinheiro por precaução aumentou. Não são apenas os traficantes de drogas e evasores fiscais que veem a atração do dinheiro como reserva de valor e que valorizam a privacidade. Entre as maiores economias, apenas a China começou a ver um declínio absoluto na relação de moeda física sobre o PIB.

Há também sinais de uma reação política contra a retirada das facilidades de manuseio de dinheiro. Nova York, San Francisco e o Estado de Nova Jersey proibiram os comerciantes de recusar pagamentos em dinheiro. No Reino Unido, o governo publicou uma análise “acesso ao dinheiro”, em que recomenda a manutenção obrigatória de um grande número de terminais de autoatendimento (ATMs) muito embora sua utilização venha caindo bastante.

Em resumo, pode ser cedo demais para se escrever o obituário da Cédula de Dólar. A demanda por seus serviços é vigorosa. Pode fazer sentido para os bancos centrais oferecer serviços digitais para não-bancos, talvez em parte para evitar a perda dos rendimentos de senhoriagem, que enriqueceriam o Facebook, em vez dos governos, num mundo dominado pela libra. Mas a menos que os bancos centrais também queiram entrar no negócio de alocação de crédito, eles vão querer evitar a desintermediação em grande escala do sistema bancário.

Suspeito que, no futuro previsível, viveremos num tipo de sistema de pagamentos de economia mista. O papel-moeda continuará exercendo sua função, embora mais modesta do que no passado, juntamente com uma variedade de cartões e transferências digitais diretas.

*Howard Davies é presidente do conselho de administração do Royal Bank of Scotland. (Tradução de Mário Zamarian)

Fonte: Valor Econômico