Queda do PIB no 2º tri deve ficar perto de 10%

19/06/2020

Abril marcou o pior momento para a economia brasileira, mas o fundo do poço foi um pouco mais raso que o previsto inicialmente, enquanto indicadores disponíveis para maio e junho mostram reação modesta da atividade. Embora a incerteza à frente continue elevada, economistas avaliam que os dados sinalizam um tombo menos pronunciado do Produto Interno Bruto (PIB) no segundo trimestre, mais perto de 10% do que de 15%. Assim, a onda de revisões pessimistas para o tamanho da recessão em 2020 deve ser contida, ao menos no curto prazo.

Divulgado ontem, o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) caiu 9,73% entre março e abril, feitos os ajustes sazonais, depois de ter recuado 6,16% na medição anterior. Foi o pior resultado para o mês da série histórica do BC. Conforme esperado, a medição refletiu as medidas de isolamento social, que derrubaram produção, vendas do comércio e prestação de serviços.

Embora tenha metodologia de cálculo diferente das Contas Nacionais Trimestrais, do IBGE, o IBC-Br é considerado uma aproximação do que seria o comportamento mensal do PIB.

Segundo Luka Barbosa, economista do Itaú Unibanco, os indicadores de abril confirmaram que o mês foi o pior do ano em termos de atividade, mas há setores mais resistentes que amorteceram a queda, como a produção de alimentos, papel e celulose e produtos farmacêuticos e, no varejo, o setor de supermercados. “Mas, mais importante do que isso, é que os dados mostram recuperação razoável em maio e junho”, afirma ele.

Tendo como ponto de partida a primeira quinzena de março – período anterior às medidas de confinamento e, por isso, usado como “base 100” -, o indicador diário de atividade do Itaú recuou para 66 em abril, subiu a 73 em maio e, nos primeiros 14 dias de junho, ficou em 82. A média móvel dos últimos 7 dias está em nível um pouco maior (84).

Barbosa estima de forma preliminar que a produção industrial subiu 6% no mês passado, enquanto o volume prestado de serviços deve ter aumentado 5% e as vendas do varejo ampliado, que inclui automóveis e material de construção, 10%. “A queda do PIB no segundo trimestre será grande, mas não tão pronunciada”, disse. Para o Itaú, a economia vai recuar 10,6% ante os três meses anteriores, mas o ‘tracking’ diário está apontando redução de 8,7%, observa o economista.

Como informações dos dois meses seguintes mostram alguma recuperação ante o quarto do mês do ano, ainda que modesta, o tombo de 15% projetado para o PIB de abril a junho deve ser revisto, diz Daniel Silva, economista da Novus Capital. “Frente às expectativas iniciais, a impressão é que o fundo do poço foi menor que se estimava.”

Em maio, a expedição de papelão ondulado, o fluxo de automóveis nas rodovias e a produção de veículos indicam avanço de 5% da produção industrial, estima Silva. Já o volume prestado de serviços deve ter subido 4%, e as vendas no varejo ampliado, cerca de 6%. “Em nível, é uma recuperação tímida, mas a queda do PIB no segundo trimestre pode ser mais perto de 10%.”

Marcela Rocha, economista-chefe da Claritas Investimentos, se diz “confortável” com a expectativa de queda de 5,5% para o PIB no ano. Devido à natureza da crise, cujos efeitos sobre a interrupção da oferta e a perda de demanda não têm comparativo, havia muita incerteza sobre qual seria o tamanho do choque em abril, afirma. Isso pode explicar por que os indicadores de atividade não confirmaram projeções mais pessimistas.

“Os dados já conhecidos e a visão de que haverá reabertura gradual da economia tiraram do radar um cenário de cauda, de retração de 15% no segundo trimestre”, disse Marcela, que trabalha com redução de 11,3% do PIB em relação aos três meses terminados em março. E a possibilidade é que a contração seja um pouco menor.

Apontam nessa direção, segundo ela, o aumento de 11,1% das vendas de automóveis entre abril e maio, o avanço de 22,1% do fluxo pedagiado de veículos nas estradas em igual período e a relativa normalização da produção de veículos, que ficou praticamente parada em abril. “Como tivemos dificuldade de projetar o tamanho da queda, não podemos subestimar o tamanho da volta”, disse.

Os economistas ouvidos destacam, no entanto, que o quadro à frente é desafiador. Mesmo com a ajuda do governo a empresas e famílias, o efeito no PIB não será relevante, avalia Silva, da Novus. “Não temos certeza se essas medidas estão sendo suficientes, porque não sabemos se as empresas vão receber os recursos e, no caso das famílias, se serão revertidos para consumo. Podem virar poupança”. Há, ainda, a elevada incerteza política e em relação à própria evolução da covid-19 no país, ressaltou.

Fonte: Valor Econômico