Economista teme longa ‘agonia’ com reabertura

15/06/2020

O Brasil vai agonizar por um longuíssimo período, com mortes diárias por covid-19, pelo fato de não ter adotado uma política pública mais radical de isolamento social. Praticamente todos os Estados anunciam processos graduais de retomada da atividade econômica, incluindo São Paulo. O alerta é feito pelo economista, professor do Insper e formulador de políticas públicas com base em evidências, Ricardo Paes de Barros, que recorre sempre aos números para argumentar que a escolha brasileira não é o melhor caminho.

Principal formulador do programa Bolsa Família, ele preparou estimativas que mostram qual seria o cenário do país se nenhuma política pública de distanciamento social fosse adotada. Considerando essa hipótese, o Brasil teria em torno de 325 mil mortes em um ano – cálculo baseado na atual média diária de óbitos.

Todas as evidências apontam, segundo o economista, que “a melhor coisa para a saúde e para a economia é o maior nível de isolamento social possível, de tal maneira que se reduza a taxa de transmissibilidade para o nível mais baixo possível”. Ele afirma não compreender como os gestores brasileiros ignoram as evidências e as experiências exitosas – e as de fracasso – em várias partes do mundo.

Para chegar aos números, Paes de Barros considera a taxa de contágio (R0) igual a 4 (R0 = 4). Quer dizer que cada indivíduo contaminado tem potencial para transmitir o vírus a outros quatro. Esse indicador é adotado (o R basal), explica ele, porque está muito próximo da capacidade real de transmissibilidade do vírus, considerando que a taxa de contágio da síndrome respiratória aguda grave (Sars) é de 3,5 pessoas contaminadas por portador do vírus.

“Todo mundo subestimou o R do coronavírus. Ele é mais contagioso e resiliente do que achávamos. Acho que o R0 = 4 não é má estimativa, não”, justifica. “É o que aconteceria se nós não fizéssemos nada. Evidentemente, na hora em que você começa a tomar uma série de medidas, o R cai.”

“Afastamento radical reduz mais o R e isso faz com que a sua crise seja menor. Não só morrem menos pessoas, mas a epidemia dura menos tempo. Se você abrir a economia e voltar mais rapidamente, o R vai ser maior e você vai permanecer mais tempo com a epidemia. Toda evidência aponta que não vai ser vantajoso para a economia essa abertura.”

A estimativa de Paes de Barros é que o Estado de São Paulo, hoje, tem um R em torno de 1,05. “Estamos muito perto de R = 1. No Brasil também. Mas esse não é o R da doença, é o R da doença com todas as medidas que estamos tomando para modificar o contágio.” O grande problema, diz, é que a flexibilização do isolamento social volta rapidamente a impactar o R, que inevitavelmente subirá.

“As nossas mortes diárias, no Brasil e em São Paulo, estão quase estabilizando, mas não caem. E a velocidade com que essas mortes diárias vão cair depende de quão abaixo de 1 é o seu R”, afirma.

Isolamento, uso de máscaras, fechamento das escolas e veto às aglomerações são obstáculos que tornam mais difícil para o vírus se propagar. “Qualquer R acima de 1 vai lhe levar a uma proporção muito grande da população infectada. A grande coisa é fazer o R ficar menor que 1.” Isso ocorre porque se reduz drasticamente o potencial de transmissão, até que se vença em definitivo a batalha contra o vírus. “Na hora que o R está abaixo de 1, você consegue neutralizar e erradicar a doença”, explica, citando como principal exemplo as políticas públicas radicais de isolamento da Nova Zelândia.

A reabertura gradual em São Paulo, na visão de Paes de Barros, é extremamente preocupante. “O que vai acontecer com isso é que nós vamos ficar com um R perto de 1, mas vamos ter em São Paulo cem mortes por dia, todo dia, por um longo período. Do jeito que estamos fazendo aqui e no Brasil, vamos parar a atividade econômica por muito tempo.”

Para ele, mais importante que tentar combater a crise é tentar reduzir o tamanho da crise. “O tamanho da crise é controlável.”

Paes de Barros traz à luz evidências sobre o impacto da covid-19 no capital humano. Ao considerar uma média dos anos de vida perdidos pelos infectados pelo coronavírus que não sobreviveram, ele calculou que são 17,1 anos perdidos na existência dessas pessoas.

O economista projeta que poderiam morrer 965 mil pessoas em três anos no Brasil (com base na média de mortes diária atual), se nenhuma medida fosse adotada. Questionado se a manutenção do R próximo de 1 pode levar a um número de mortes semelhante, apenas mais espaçado ao longo do tempo, Paes de Barros explica: Com o R = a 1, o número de mortes do dia seguinte vai ser o mesmo número de mortes do dia anterior. O Brasil tem mil mortes por dia. Se multiplicarmos mil mortes por 360 dias, com o R = 1, em um ano teremos 360 mil mortes”. Em três anos, diz, a estimativa se aproxima de 1 milhão de óbitos.

Levando-se em conta a média de anos perdidos, ele fez uma projeção global de quantos anos de vida, somados, todas essas vítimas perderão: 16,5 milhões de anos de vida (325 mil mortos por ano durante três anos).

Como cada ano de vida pode ser calculado como três vezes e meia o que as pessoas recebem (segundo cálculo da Organização Mundial de Saúde), é possível calcular, também, “qual é o valor, a perda, que esses anos de vida vão ter”. Mais uma vez, os números assustam: em números absolutos, o valor de vidas perdidas equivale a R$ 1,7 trilhão, ou seja, o equivalente a 23% do PIB nacional.

Paes de Barros enfatiza que “o ponto central é entender que o tamanho da crise de saúde e econômica não é exógena”. “Ela depende das nossas ações. Não consigo ver qual seria o argumento que alguém poderia usar para dizer que a melhor coisa não é parar tudo, vencer a luta contra o vírus e aí voltar tudo. Esse tratamento mais ou menos que o Brasil adotou – e que numa mesma medida os EUA adotaram, a Suécia idem – não me parece ser a melhor solução”, alerta. “A melhor solução seria um tratamento muito mais radical, que faria com que a epidemia parasse mais rapidamente.”

Ele reconhece que talvez os gestores, como o governador de São Paulo, João Doria, e o prefeito Bruno Covas, enfrentem dificuldades para manter o isolamento, por não conseguirem convencer a população a ponto de o R cair abaixo de 1. “Talvez o que o governo São Paulo esteja enfrentando é o fato que as autoridades não conseguem mais parar as pessoas.”

Ainda assim, insiste que gestores deveriam tentar outras saídas. “A gente corre sério risco de abrir um pouquinho, o R subir, e a gente ter que fechar tudo de maneira radical mais pra frente. Isso aconteceu no Irã, que diminuiu, controlou, e teve depois uma segunda subida. Estamos muito longe da imunidade de rebanho. Se o vírus voltar, ele tem todo espaço do mundo para se propagar no Brasil. Aí a gente pode gerar um segundo ciclo parecido com o primeiro. A melhor solução é reduzir o contágio.”

O economista aconselha uma abordagem: “Cabeleireiro, a melhor proteção pra você não é poder abrir seu salão e atender um cliente a cada duas horas. É acabar com o vírus de tal maneira que você possa atender um a cada meia hora. Isolamento temporário não ajuda em nada, a menos que com isso se consiga realmente erradicar o vírus.”

O Brasil, pelas opções feitas até o momento, não conseguirá fazer isso, diz. “O que é o melhor? Uma guerra prolongada ou a guerra rápida? Declara um feriado super prolongado, ninguém sai de casa, a gente baixa isso de maneira substancial e aí depois a gente retoma”, lamenta. “Não chegamos na metade do ano e São Paulo já tem mais de 40 mortes por 100 mil habitantes. É meio que o dobro de homicídios por ano. Desse jeito, podemos chegar a 10 mil até fim 2020. Muito mais alto que todas as taxas de homicídio extremamente elevadas brasileiras.”

Fonte: Valor Econômico