Dois milhões de vagas, e desemprego não cede

01/06/2019

A criação de dois milhões de vagas não reduziu o número de desempregados, o mesmo de um ano atrás. O contingente de 13,2 milhões de pessoas não cede porque mais membros das famílias buscam colocação, para reforçar a renda da casa. As vagas com carteira assinada subiram após quatro anos, mas mercado informal foi o que mais absorveu.

Apesar de o mercado de trabalho ter absorvido dois milhões de trabalhadores em um ano, o grupo de desempregados permanece praticamente do mesmo tamanho de um ano atrás. São 13,2 milhões de pessoas em busca de uma vaga, informou ontem o IBGE. Esse contingente não cede porque a urgência econômica das famílias tem levado pessoas que estavam fora do mercado atentarem uma colocação. A taxa de desemprego está em 12,5%.

Depois de quatro anos sem crescer, o grupo de trabalhadores com carteira assinada teve uma adição de 480 mil pessoas no trimestre encerrado em abril, em relação ao mesmo período do ano passado. Mas foi o mercado informalque absorveu a maior par tedos brasileiros que conseguiu emprego no último ano. Segundo o coordenador de Trabalho e Rendimento do IBGE, Cimar Azeredo, parte expressiva da recuperação de postos com carteira no ano veio dos setores de educação e

saúde, de trabalhadores debaixo nível educacional de setores como mineração, construção e transporte e, também, dos profissionais liberais: —O aumento reflete o início de um quadro favorável. Éa primeira vez que a categoria carteira de trabalho respira desde o início da crise, em 2014.

Já o grupo dos que atuam por conta própria, estimado em 24 milhões de pessoas, ganhou quase um milhão de trabalhadores em um ano, principalmente em aplicativos de transporte e entrega (239 mil trabalhadores), serviços de beleza e de corretores autônomos do setor financeiro. Os dados, da pesquisa Pnad Contínua, foram divulgados um dia depois de o IBGE informar que a economia recuou 0,2% no primeiro trimestre do ano. O desemprego alto é uma das razões para o Produto Interno Brasileiro( PIB) ter apresentado desempenho ruim. — Precisamos gerar uma quantidade de emprego muito grande para tirar este contingente do desemprego e absorver os jovens que se formam e aqueles que já estavam fora do mercado, como aposentados, e voltaram a procurar para recompor a renda da família. Isso só vai acontecer quando a economia entrar em uma trajetória dede crescimento maior e sustentável —diz Maria Andreia Parente, economista do Ipea. Segundo Clemente Ganz Lúcio, sociólogo e diretortécnico do Dieese, a tendência é que o grupo de desempregados cresça ainda mais: — A urgência econômica das famílias faz com que pessoas que não procuravam trabalho passassem a procurar. E, quanto mais vagas a economia gerar, mais gente que havia desistido retomará a esperança e a busca. Desde o ano passado, a estudante Caroline Seabra, de 21 anos, coloca currículos em lojas, escolas e cursos de inglês, mas não tem retorno. A jovem, que cursa Física na UFF, em Niterói, teve que se dedicar menos à faculdade para procurar emprego, já que sua mãe, Leila, que era a principal fonte de renda da família, foi demitida há dois anos e ainda não conseguiu se recolocar no mercado. —Sobrevivemos com a pensão que meu pai dá, que não é muito, e com os bolos e doces que vendemos. Minha mãe vende pelo bairro e eu trago para a faculdade. Isso nos dá uns R$ 500 por mês. Mas, como não é uma renda fixa, não dá para contar — diz a jovem, que mora em São Gonçalo.

28,4 MILHÕES BUSCAM VAGA

No trimestre encerrado em abril, um número recorde de 4,9 milhões de brasileiros relatou ter desistido de procurar trabalho por falta de perspectivas de contratação —o chamado desalento. A população subutilizada também foi a maior já registrada, com 28,4 milhões de pessoas. Nesse grupo estão, além dos desempregados e desalentados, pessoas que trabalham menos de 40 horas por semana e gostariam de ter uma carga horária maior e aqueles que procuraram, mas não poderiam trabalhar naquele momento por diversas razões, como ter de cuidar dos filhos. A renda média do trabalhador brasileiro segue estável. Em abril, foi estimada em R$ 2.295.

Fonte: O Globo