Sinais negativos da economia

04/05/2019

O governo Jair Bolsonaro está falhando com parte do seu eleitorado que acreditava em uma melhora rápida na economia. Claro que o governo mal começou, mas é fato também que começou mal. Muita gente acreditava, ao votar em Bolsonaro —e no mercado financeiro essa visão era majoritária —que haveria uma explosão de investimentos e até de vagas no mercado de trabalho. Os dois principais indicadores de emprego não mostram isso e os índices de atividade estão piores do que o esperado. A produção industrial de março, divulgada ontem, mostrou queda de 1,3%. As projeções dos economistas eram de um negativo menor.

A medida de desemprego do IBGE, a PNAD Contínua, sempre fica mais alta no começo do ano. O desemprego subiu no primeiro trimestre em relação ao quarto, e caiu muito pouco sobre o mesmo período de 2018. No Caged, a geração líquida de empregos formais foi mais baixa do que no primeiro trimestre do ano passado. A produção industrial em 12 meses ficou negativa pela primeira vez desde agosto de 2017. O mercado de trabalho é sempre o último a reagir aos ciclos econômicos, para o bem ou para o mal. Já se sabia que seria assim, vai melhorar, mas devagar. Houve quem acreditasse, no entanto, que a posse de um governo que se define como liberal tivesse o poder de destravar a economia. O problema é que o governo alimenta a incerteza econômica e tem demonstrado pouca habilidade política. A reforma da Previdência, que é apenas o início da solução da crise, tem enfrentado mais dificuldades do que se esperava. A devastação no mercado de trabalho não é culpa do atual governo. Mas quando a confiança na economia sobe, as contratações aumentam. A confiança que havia subido voltou a cair. O economista Bruno Ottoni, especialista em mercado de trabalho no Ibre/FGV, enxerga alguns bons sinais, mas diz que o quadro é de uma recuperação muito fraca. Em dezembro de 2018 a taxa de desemprego foi de 11,6%, a expectativa é de que chegue em dezembro deste ano em 11,4% e caia para apenas 11% no mesmo mês de 2020.

— No ano passado, houve criação de 535 mil empregos formais. Este ano, prevemos algo em torno de 700 mil. Então haverá uma melhora. O problema é que para acelerar essa gerarão de empregos é preciso que a economia volte a crescer mais fortemente, e ainda não estamos vendo isso nas projeções do Ibre— explicou. Ontem, o IBGE divulgou que a produção industrial caiu 1,3% em março, contra expectativa de recuo de 0,6%. Foi o segundo trimestre consecutivo de números vermelhos no setor. Com isso, aumentaram os riscos de um PIB negativo no primeiro trimestre. A produtividade no país é baixa há muito tempo, e isso reduz a capacidade de competir mundialmente. A crise fiscal é severa e o endividamento público tem subido. Esta semana o Banco Central divulgou mais um déficit primário, de R$ 18 bilhões em março, com aumento da dívida bruta para 78% do PIB.

A reforma trabalhista do governo Temer teve pouquíssimos resultados concretos até agora. Ottoni tem várias suspeitas para esse efeito limitado e vê com certa cautela as informações divulgadas de maneira esparsa pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, de criação da carteira de trabalho verde e amarela.

— Até outubro, tínhamos um candidato do PT falando em revogara reforma trabalhista. Então a incerteza era muito grande. Só agora a Justiça está definindo a jurisprudência, mas é justamente neste momento que o novo governo fala em mais mudanças, em criação de um novo regime para os mais jovens. Em que medida as duas reformas vão se chocar? Será que isso não vai deixar o empresário confuso e atrasar ainda mais as novas contratações? —questiona.

A ilusão de uma recuperação rápida pós eleições deu lugara um anova expectativa, a de que a aprovação da Previdência vai reequilibrar as contas públicas. Melhora sim, mas no médio prazo, ao reduzir o ritmo de crescimento do déficit, e não é a panaceia. A aprovação de um projeto com economia importante terá bom impacto no clima econômico, mas muitas outras reformas são necessárias para corrigira rotado crescimento. O Ministério da Economia tem falado sobre elas, mas deforma desorganizada. Dá a impressão de que os projetos são anunciados antes de serem formulados. Isso não ajuda. Passa a sensação de improviso.

Fonte: O Globo