Desconsiderar o risco de uma greve é temerário, diz presidente da Petrobrás

26/04/2019

Duas semanas após o recuo no reajuste do diesel, a pedido do presidente Jair Bolsonaro, Roberto Castello Branco diz que a estatal não deve subsidiar o preço do produto, mas não poderia “desconsiderar os riscos” de uma greve dos caminhoneiros: “Eu poderia ter dito não, que a Petrobrás é independente (…). Mas este tipo de atitude não é construtivo. Não dá para bancar ser o machão”.

Negociação. Segundo Castello Branco, a Petrobrás não pode subsidiar o diesel porque cria um problema sério para o Brasil, mas reconhece que caminhoneiros ganharam poder de barganha; ‘o governo nunca fez menção de intervir na companhia’, afirma o executivo

Duas semanas após o presidente Jair Bolsonaro pedir para a Petrobrás segurar o reajuste do preço do diesel por conta da ameaça de uma greve dos caminhoneiros, Roberto Castello Branco, presidente da estatal, disse ao ‘Estadão/Broadcast’ que esse assunto já está superado. A decisão levou a companhia a perder R$ 32 bilhões em valor de mercado no dia 11 de abril e criou um temor entre investidores de que o governo voltasse a interferir na política de preços de combustíveis.

Segundo Castello Branco, a Petrobrás não pode subsidiar o preço do diesel porque cria um problema sério para o Brasil. “Não quero que os eventos do passado se repitam (ingerência na política de preços). Mas desconsiderar os riscos de uma greve é temerário”, disse. O executivo reconhece que os caminhoneiros ganharam poder de barganha – em maio do ano passado, a categoria parou o País por dez dias. Pedro Parente, que presidia a estatal à época, renunciou ao cargo após o governo de Michel Temer suspender reajuste ao diesel por causa da greve.

O executivo afirmou que em nenhum momento pensou em deixar a Petrobrás por causa da polêmica sobre o reajuste do diesel. “Minha preocupação era como eu poderia contornar a crise sem violar qualquer crença minha. Quero melhorar a Petrobrás. Se eu sentir que vou fracassar, não tenho mais nada a fazer, não vou comprometer a minha credibilidade. Demissão é um ato que se executa, e não se ameaça. Não é inteligente fazer isso.”

O executivo afirmou que tem um diálogo construtivo com Brasília, sobretudo com a equipe econômica. “O governo nunca fez menção de intervir na companhia.” E essa postura, segundo ele, tem sido importante para que a estatal acelere seus planos de vendas de ativos considerados não estratégicos.

Desinvestimentos. Neste ano, a Petrobrás conseguiu levantar US$ 10,3 bilhões com os desinvestimentos. Desse total, US$ 8,6 bilhões vieram com a venda da rede de gasodutos TAG para a francesa Engie. A companhia também se desfez da plataforma do campo de Tartaruga Verde (comprada pela empresa Petronas, da Malásia, por US$ 1,3 bilhão) e do polo do Riacho da Forquilha, arrematada pela baiana PetroRecôncavo, por US$ 384 milhões.

“É o maior plano de desinvestimento de ativos da história da Petrobrás. Boa parte dos recursos será usada para reduzir a dívida da companhia. Vamos nos concentrar na produção e exploração de petróleo e gás natural”, disse.

A Petrobrás pretende vender parte de suas refinarias, de sua participação na petroquímica Braskem, da Liquigás (botijão de gás), de ativos não estratégicos fora do País, e tem estudos para se desfazer de suas distribuidoras de gás em todo País.

‘Não dá para bancar ser o machão’
Ficar refém novamente nas mãos dos caminhoneiros foi uma preocupação real do presidente da Petrobrás, Roberto Castello Branco. Para ele, a decisão de suspender o reajuste do diesel não compromete a credibilidade da companhia. “Acho que a preocupação do presidente (com a greve) foi legítima.” A seguir, os principais trechos da entrevista.

• Como foi o pedido do presidente Bolsonaro à Petrobrás para segurar o reajuste do diesel? Estava no aeroporto de Galeão quando o presidente me ligou. Ele foi informado sobre o aumento do diesel e me alertou sobre uma possível greve dos caminhoneiros. Disse a ele que iria estudar o assunto e discutir com a diretoria (da Petrobrás) para cancelar o aumento. Em seguida, liguei para a diretora de refino. Chegamos à conclusão que, diante do risco de uma greve, era melhor sustar o aumento e depois avaliar o que poderia ser feito.

• A Petrobrás então acatou o pedido do presidente…

Nos reunimos com vários ministros na Casa Civil na segundafeira (dia 15). Foram discutidas várias ideias. Inclusive, uma sugestão minha, sobre a indexação do contrato de frete ao preço do diesel. Na terça-feira, pela manhã, várias medidas foram anunciadas. No mesmo dia, à tarde, tive reunião com o presidente Bolsonaro e os ministros Onyx Lorenzoni (Casa Civil), Paulo Guedes (Economia) e almirante Bento Albuquerque (Minas e Energia) para explicar ao presidente como é a situação do diesel no Brasil.

• Entendeu o pedido como uma interferência do governo?

Acho que a preocupação dele foi legítima. Fiquei preocupado com o risco de greve permanecer. A Petrobrás não pode subsidiar o preço do diesel, seria um problema para o Brasil e não resolveria o problema dos caminhoneiros. Sugeri que o reajuste seja feito só na alta. Temos outras ideias, que implicam gastos do governo (compra de frota antiga, bolsa caminhoneiro e requalificação).

• A decisão de suspender o aumento arranhou a imagem da empresa para o investidor? Acho que não. Se a Petrobrás tivesse mudado sua política, congelado os preços… Não perdemos um tostão porque efetuamos operação de hedge.

• Mas o mercado se assustou… Sim e a queda das ações da Petrobrás repercutiu isso. Temos um passado muito ruim. A Dilma (Rousseff, ex-presidente) fez isso, (o mercado entendeu que) o Bolsonaro iria fazer… Mas isso não aconteceu. Não estou aqui para defender… Não sou político, mas acho que foi injusto (com o presidente). A atuação dele foi no sentido de que havia um risco de greve. A comunicação, enfatizo, é muito importante. Toda a discussão foi por R$ 0,10.

• Temos de lembrar que as manifestações de 2013 começaram por causa de R$ 0,20…

Sem dúvida. Mas não era por causa de R$ 0,20. Era algo mais fundamental. Os nossos serviços públicos continuam sendo muito ruins…

• Como é sua interlocução com Bolsonaro e Paulo Guedes? Com o presidente, tive só esta reunião em que esclarecemos os pontos para ele. Com Guedes e o ministro almirante Bento, tenho um diálogo muito bom, construtivo. Eles nunca fizeram menção de intervir na companhia. Tive liberdade para escolher todos diretores e gerentes que quis, sem intervenção.

• O presidente tem uma visão menos liberal que a do sr. e da equipe econômica.

O presidente é um político. Sou economista, assim como Guedes. Temos ideias convergentes. Concordamos em muita coisa, não 100% necessariamente.

• Os caminhoneiros ganharam um poder grande de barganha no ano passado. Não teve medo de a Petrobrás ficar refém deles? Tenho preocupação. Não quero que os eventos do ano passado se repitam. Foram ruins para a Petrobrás. O presidente da Petrobrás saiu e a companhia ficou paralisada. Por isso, tenho sido ativo em fazer sugestões ao governo. Eu poderia ter dito que a Petrobrás é independente, o aumento está dado e vamos embora. Mas essa atitude não é construtiva. Não é porque a gente retarda o aumento por poucos dias que vai diminuir a credibilidade da companhia. Minha obrigação é defender a estatal. Não dá para bancar ser o machão. A gente tem de pensar e analisar os riscos.

• No ano passado custou a renúncia do Pedro Parente… Chegou a pensar em sair?

Não. Pensei em contornar a crise, sem violar qualquer crença minha. Estou aqui para cumprir uma missão. Se eu sentir que vou fracassar, não tenho mais nada a fazer, não vou comprometer a minha credibilidade. Mas demissão é um ato que se executa, e não se ameaça. Não é inteligente fazer isso.

• A Petrobrás é o símbolo da Lava Jato. Ainda há esqueleto no armário?

Creio que não. Se achasse, iria atrás. A Petrobrás sofreu muita depuração, a governança se fortaleceu. Mas não dá para garantir que não há mais nada.

“Não quero que os eventos do ano passado se repitam. Foram ruins para a Petrobrás. (No ano passado), o presidente da Petrobrás saiu e a companhia ficou paralisada. Tenho sido ativo em fazer sugestões ao governo.”

“Tenho uma boa interlocução com a equipe econômica. Sou livre para escolher todos os diretores e gerentes que quis, sem nenhuma intervenção.”

Fonte: O Estado de S.Paulo