Bolsonaro critica Maia e agrava crise

24/03/2019

O presidente da República, Jair Bolsonaro, reagiu ontem às críticas do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), que cobrou maior empenho do Executivo para a aprovação da reforma da Previdência e agravou a crise com o Congresso. Bolsonaro elevou o tom e disse não entender a agressividade de Maia. Afirmou ainda que “a bola (para aprovação da reforma) está com o Parlamento” e reiterou que não faria negociação política como seus antecessores, por não querer ir para a cadeia. Maia, por sua vez, reiterou que apoia as mudanças na Previdência e, após encontro com o governador paulista João Doria (PSDB) — que disse que colocaria a “força de São Paulo” para apoiar a reforma —rebateu as críticas do presidente. Afirmou que “o Executivo não está acima dos outros Poderes”. Na equipe econômica, o prolongamento do atrito entre Bolsonaro e Maia, considerado peça fundamental para garantir a aprovação da reforma, é visto como um clima de “apocalipse”. Desde sexta-feira, o presidente da Câmara e o chefe do Executivo trocam farpas em torno do projeto que vai mudar as regras das aposentadorias dos brasileiros. Irritado com críticas de um dos filhos de Bolsonaro, Maia cobrou empenho do presidente para aprovação da proposta. Inicialmente, Bolsonaro disse que estaria disposto a conversar com o deputado, mas, ontem, em visita oficial ao Chile, mudou de tom.

‘O QUE É ARTICULAÇÃO?’

O presidente disse nunca ter criticado Maia e não entender por que “ele está se comportando dessa forma um tanto quanto agressiva”. Afirmou que já fez sua parte ao encaminhar a proposta ao Congresso e que cabe aos parlamentares fazerem eventuais mudanças, sem sua interferência:

— Não vou entrar nessa disputa. Somos independentes. Não serei levado a campo de batalha diferente do meu. Respondo pelos meus atos no Executivo. Legislativo são eles, Judiciário é o Dias Toffoli (presidente do Supremo). Isso se chama democracia. Bolsonaro teria dito a auxiliares que não está disposto a ceder a pressões de Maia e que decidiu se afastar da articulação política da reforma. Segundo uma fonte do governo, o presidente classifica as críticas do parlamentar como “pressão do Congresso por cargos e vantagens”.

No Chile, Bolsonaro reforçou que sua gestão está pautada na “nova política” e criticou seus antecessores, que, na sua opinião, fizeram a “velha política” e acabaram na cadeia, uma referência aos ex-presidentes Lula e Michel Temer:

— A bola está com o Parlamento. Mas, me desculpe, o que é articulação? O que é que está faltando eu fazer? Nós temos que fortalecer o nosso país. Não são todos, mas alguns, que não estão acostumados com a nova forma de fazer política. A anterior deu errado. Olha onde estão os ex-presidentes. Não quero ir para lá (cadeia). Não irei para lá por esses mesmos erros. Jamais. Maia tinha começado o

sábado declarando que a crise tinha acabado, mas, no fim da tarde, rebateu as críticas de Bolsonaro. Após almoço com Doria, marcado na véspera a convite do governador, quando a temperatura já estava alta, reagiu: — Não uso as redes sociais para agredir ninguém. Uso as redes sociais para dar informação aos meus eleitores, à sociedade brasileira. Vivemos em uma democracia, e nela o Executivo não está acima dos outros Poderes —disse o deputado. — Ele (Bolsonaro) não pode terceirizar a articulação (da reforma) como está fazendo. O vice-governador de São Paulo, Rodrigo Garcia, também participou do almoço com Maia e Doria. O governador disse que é preciso “esquecer o que passou” e tocar a reforma adiante: — É um momento de diálogo, de serenidade. Apoiamos e confiamos plenamente na conduta, trabalho e relevância do deputado Rodrigo Maia como presidente da Câmara e como líder para a aprovação da reforma da Previdência.

O clima que se instalou em Brasília foi comparado por integrantes da equipe econômica ao “apocalipse”. De acordo com fontes ouvidas pelo GLOBO, os técnicos ficaram estarrecidos. O ministro da Economia, Paulo Guedes, tenta reconstruir a relação entre Maia e Bolsonaro para não prejudicar o projeto da reforma, tido como fundamental para a economia do país. No entanto, seu poder de conciliação pode ser limitado, apesar do bom relacionamento com Maia.

MARINHO: ‘O MUNDO CAIU’

Em evento no Guarujá, Rogério Marinho, secretário especial de Previdência e Trabalho, disse ontem que o “mundo caiu” na sexta-feira, quando as desavenças entre Maia e Bolsonaro se tornaram públicas: — Ontem (sexta-feira) o mundo caiu, e todo o processo que estávamos trabalhando (para a aprovação da reforma da Previdência) deu uma degringolada. Estamos em processo de recomeçar a relação dentro do Congresso — disse Marinho, em palestra no 7º Fórum Lide do Varejo.

O líder do PSL na Câmara dos Deputados, Delegado Waldir (GO), disse que vai recomendar à assessoria de Maia e também ao presidente Bolsonaro uma dose de suco de maracujá e camomila para apaziguar os ânimos. — Está faltando suco de maracujá, camomila. São chefes de dois Poderes travando essa guerra de farpas, e isso não é bom para o país. Não fica bem. A melhor ferramenta é o diálogo, o Brasil não precisa de extremismo, nem do presidente Bolsonaro nem de Rodrigo Maia. Segundo Waldir, o governo “não tem base” no Congresso e conta apenas com os 55 deputados do partido para apoiar suas propostas. Marcos Pereira (SP), presidente do PRB e vice-presidente da Câmara, recorreu às redes sociais para comentar a crise. Ele escreveu que Bolsonaro “joga a responsabilidade para o Parlamento” e “parece não querer aprovar a reforma”.

Fonte: O Globo