Ford não vai investir ‘nem mais um centavo’ no ABC

13/03/2019

A direção mundial da Ford confirmou aos trabalhadores de São Bernardo do Campo que não voltará atrás na decisão de fechar a fábrica este ano. “Eles disseram que não vão investir nem mais um centavo aqui”, relatou José Quixabeira de Anchieta, um dos dirigentes do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC que esteve nos Estados Unidos, na semana passada, para tentar convencer o grupo a manter a unidade na qual trabalham 4,5 mil funcionários diretos e terceirizados.

Segundo Rafael Marques, diretor do sindicato, o presidente de operações globais da Ford, Joe Hinrichs, confirmou que há três grupos interessados na aquisição da fábrica e que a direção brasileira da montadora deverá receber um deles nos próximos dias. “Conseguimos o compromisso de que, quando chegar o momento, vamos participar da negociação”, disse ele, durante assembleia realizada ontem nos portões da fábrica para falar da viagem.

“Agora, nossa luta é ajudar e facilitar as negociações e exigir que a condição para esta venda seja a garantia de emprego de todos os trabalhadores”, afirmou o presidente do sindicato, Wagner Santana.

A Ford do Brasil não confirmou o encontro, nem revelou quais são as duas multinacionais que estariam interessadas na fábrica. Somente o grupo brasileiro Caoa confirmou o interesse. A empresa é dona de revendas Ford e produz, em Goiás, alguns modelos da coreana Hyundai. É parceiro da chinesa Chery, que tem fábrica em Jacareí (SP).

Incentivos. O sindicato cobra responsabilidades da Ford que, segundo cálculos levados à matriz, recebeu R$ 7,5 bilhões em incentivos fiscais nos últimos cinco anos para a fábrica da Bahia, onde vai concentrar sua produção de automóveis. Também teria recebido R$ 5,5 bilhões em empréstimos a juros subsidiados do BNDES, além de outros benefícios do programa Inovar-Auto e do Rota 2030.

A produção no ABC está parada desde 19 de fevereiro, quando a companhia anunciou o fechamento alegando que a decisão vai ajudar a reduzir os prejuízos na América do Sul, que somam R$ 4,5 bilhões desde 2013.

Ontem, os trabalhadores decidiram manter a paralisação e realizar novas assembleias para definir formas alternadas de protestos. Presente ao evento, a deputada federal e presidente do PT, Gleisi Hoffmann, disse

que vai propor a formação de uma comissão no Congresso para pedir ao presidente Jair Bolsonaro que trate do assunto em sua visita ao presidente americano, Donald Trump.

Com 52 anos de operações, a fábrica do ABC produz caminhões e o modelo Fiesta e opera com 80% de ociosidade. A matriz decidiu abandonar o segmento de veículos pesados. Em 2023, o País terá normas mais rigorosas para emissões e seriam necessários investimentos para adotar novas tecnologias, o que a Ford não está disposta a fazer. A atual versão do Fiesta, lançada em 2013, sairá de linha.

Fonte: O Estado de S.Paulo