Gasolina cara e chuvas salvam indústria do etanol

18/01/2019

Nos últimos meses, grande parte dos brasileiros abandonou a calculadora na hora de encher o tanque do carro. A tradicional equação utilizada para saber se vale a pena abastecer com gasolina ou etanol — em que o preço do litro do derivado de cana-de-açúcar não pode superar 70% do valor da gasolina — caiu em desuso, porque o combustível produzido nos canaviais venceu no quesito custo/benefício, na maior parte do tempo.

Essa situação, criada a partir da política de reajustes automáticos da Petrobras e da alta incidência de chuvas, que irrigaram as plantações de forma generosa, trouxeram um certo alento à indústria sucroalcooleira nacional. “As regras de preços estão muito mais claras e o setor consegue se planejar adequadamente”, afirmou o economista Antonio de Padua Rodrigues, diretor da União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica). “Não há do que reclamar. Estamos confiantes para o futuro.”

O cenário positivo tem levado o setor a bater recordes de produção e vendas. Entre abril e dezembro do ano passado, a produção total do etanol chegou a 30 bilhões de litros no Centro-Sul do Brasil. O hidratado, comercializado nos postos, aumentou 44% em comparação ao mesmo período no exercício anterior. As vendas totais alcançaram 23,8 bilhões de litros, consolidando o Brasil na segunda posição dos maiores consumidores do combustível vegetal do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos.

Deste volume, o hidratado representou 19 bilhões de litros. Já o anidro (utilizado na mistura com a gasolina) bateu na casa dos 6,9 bilhões de litros. “A vantagem do etanol sobre a gasolina ficou maior após a flexibilização do preço da gasolina e com a boa performance do agronegócio nos últimos meses”, disse Altair Marques Oliveira, economista da Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo.
Na ponta do lápis, o etanol não deixa muitas dúvidas. Nas primeiras semanas de 2019, a paridade média entre os preços de ambos nas bombas totalizou 65% no Brasil, segundo cálculos da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Quando o percentual fica abaixo de 70%, vale a pena abastecer com etanol.

Em pelo menos oito estados — Alagoas, Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, Paraíba, Paraná, Pernambuco e São Paulo — o renovável permanece competitivo nos postos. Na capital e no interior paulista, a referência fica abaixo dos 65%.

Assim como o etanol de cana, o combustível procedente do milho atingiu 42,94 milhões litros na segunda quinzena de dezembro. No acumulado de 2018/2019 até 1º de janeiro, foram 512,81 milhões de litros, volume praticamente igual à produção na safra 2017/2018 (de 521,49 milhões). Os números ainda são parciais, e os balanços conclusivos ficarão prontos em abril.

Um dos fatores que ajudaram a impulsionar o setor de etanol foi, sem dúvida, o preço pago às empresas produtoras. Segundo levantamento do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (CEPEA-ESALQ), a média de preços pagos pelo litro do combustível às usinas do estado de São Paulo, responsável por 60% da cana processada no Centro-Sul, era de R$ 1,49 de janeiro de 2017, sem considerar a incidência de frete e impostos. No mesmo mês de 2018, subiu para R$ 1,66. Neste mês está na casa de R$ 1,70.

Na contramão, o açúcar passou da média de R$ 68,46 a saca de 50 quilos, em 2017, para os atuais R$ 57,73. Segundo Rodrigues, da Unica, as unidades produtoras do Centro-Sul têm destinado, em média, de 60% a 65% da cana para o etanol e o restante para o açúcar. “Não é possível afirmar que esses percentuais serão mantidos na próxima safra. Tudo vai depender muito dos preços do açúcar e do etanol, além da qualidade da matéria-prima. Ainda que haja pequenas alterações, não acredito que será uma safra muito diferente da última que tivemos”, afirma.

No entanto, ainda pelos cálculos da Unica, das 206 usinas de açúcar e álcool da região Centro-Sul do Brasil, 78 terminaram a última safra de 2018 sem terem produzido bons estoques de açúcar. Pelo menos 62 unidades destinaram 100% da cana ao etanol.

“Isso começa a se desenhar em 2019. Houve uma forte sinalização pelo excesso de açúcar no mercado mundial e de uma nova política para os preços dos combustíveis. Assim, as usinas trocam o açúcar pelo etanol”, explica Rodrigues. Ele destaca ainda que a safra 2018/2019 está praticamente encerrada na região Centro-Sul. “Para o 1º trimestre de 2019, o volume de cana fica na dependência das condições climáticas. É cedo para fazer qualquer projeção sobre a oferta na próxima safra”, comenta o executivo.

Entrevista: Antonio de Padua Rodrigues
“Carros elétricos e etanol devem caminhar juntos”

Os recentes recordes do setor de etanol já eram esperados?
O etanol superou a nossa expectativa, tanto na produção quanto nas vendas e no consumo do Centro-Sul do Brasil. Chegamos a 30 bilhões de litros. O hidratado subiu impressionantes 44% se comparado a igual período no ano anterior. Então, o etanol está muito competitivo na maioria dos estados brasileiros.

Pode-se esperar um novo recorde em 2019?
É possível que a moagem de cana fique no mesmo nível da safra anterior. O nível produtivo depende muito de se renovar o canavial agora um pouco abaixo da média histórica. O clima é um dos fatores que mais interferem. Penso que a próxima safra deve equilibrar mais o mix de açúcar e etanol.

Então, a próxima safra deve ser mais voltada à exportação?
Sim. Os preços do açúcar no mercado internacional despencaram quase 40% porque havia excesso de oferta. A culpa é dos subsídios da Índia, o segundo maior produtor mundial, e do Paquistão, outro importante produtor. Além disso, o Brasil sentiu a queda nas exportações de açúcar por causa da salvaguarda concedida pela China, que segue para o terceiro ano. Os asiáticos eram o principal destino do nosso açúcar, mas os números recentes apontam para um enorme recuo. É um dos itens desiguais que nos desafiam.

O que o setor espera do novo governo?
Espero dialogar e debater. Queremos visitar o Planalto para levar questões que nos incomodam. Uma das delas é criar mecanismos capazes de buscar equilíbrio no mercado nacional e internacional. Nossos maiores problemas estão lá fora. Quanto às políticas públicas, focalizamos a regulamentação do RenovaBio. É a Lei da Política Nacional dos Biocombustíveis. O programa pretende lançar um sistema de crédito de carbono. O produtor de biocombustível, não necessariamente do etanol, emite os títulos (os CBios) e os comercializa em um mercado financeiro atrelado às distribuidoras. Haverá metas para reduzir emissões de CO2. Consequentemente, os produtores poderão ampliar o faturamento e obter melhores condições de retomar os investimentos e crescer.

Há dificuldades a superar? Algo que preocupe?
Desde 2008, 80 usinas fecharam e umas 70 estão em recuperação judicial. Só as mais fortes conseguem empréstimos. É indispensável que haja estímulos, especialmente para que a gente amplie os espaços no cenário internacional. Agora estamos em desvantagem.

O governo Michel Temer criou o reajuste automático no preço da gasolina. Qual é o impacto disso no etanol?
A política de reajuste de preços da gasolina pela Petrobras é encarada positivamente. As regras de preços estão muito mais claras e o setor consegue se planejar adequadamente. Vamos nos rastros das mudanças e procuramos nos beneficiar das alterações oficializadas. Não há do que reclamar. Estamos confiantes para o futuro.

O crescimento dos carros elétricos ameaça o etanol?
O avanço dos carros elétricos no Brasil é um ponto muito importante. A entidade não é contra e defende que o etanol componha essa transformação, com o uso de motores flex (etanol e eletricidade). Alguns estudos mostram que a emissão de CO2 de um híbrido movido a biocombustível seria menor que a de um veículo 100% elétrico. Acredito que os carros elétricos e a etanol devem caminhar juntos. Não seríamos prejudicados.

Fonte: Correio Braziliense