Caos.
Essa é a palavra que resume a situação
do mercado de combustíveis nos últimos meses.
Passamos da euforia pela autossuficiência em petróleo
à importação de gasolina; de fornecedor
global a importador de etanol anidro. E estamos pagando
muito caro por isso.
A
cadeia de abastecimento brasileira é extremamente
complexa e regulada. Refinarias e usinas produzem gasolina
e etanol, respectivamente. As distribuidoras compram os
combustíveis e revendem aos postos, onde a população
abastece seus veículos. Quem se indigna com o valor
praticado na bomba, muitas vezes, não tem ideia de
toda essa cadeia por trás do produto. Não
contribuem também para o entendimento da situação
declarações populistas de diversas autoridades,
que não cumpriram sua função de regular
e garantir o bom funcionamento do mercado, e agora decidem
colocar a culpa nos postos.
Por que essas mesmas autoridades não alardeiam que
o etanol anidro, aquele adicionado à gasolina, subiu
182% nas usinas entre junho de 2010 (quando começou
a alta, embora discreta) e abril de 2011, sem fretes ou
impostos, segundo dados do Centro de Estudos Avançados
em Economia (Cepea/USP). Só essa alta provocou uma
elevação de 19% no custo da gasolina, sem
levar em conta outros possíveis impactos tributários
ou de margens. No mesmo período, as distribuidoras
venderam gasolina 14,5% mais cara aos postos, que repassaram
majorações de 11,6%, segundo os preços
médios Brasil apurados pela ANP.
Toda
semana os postos são comunicados por suas distribuidoras
que o etanol ou a gasolina estão três, cinco,
dez centavos mais caros. O que explica o preço do
hidratado ter subido 5,24% nas usinas, somente na semana
passada, apesar da safra ter começado e do consumo
ter diminuído?
Sim,
o consumidor está insatisfeito e indignado, como
também estamos nós, donos de postos. Porque
todos os dias temos que explicar aos nossos clientes o motivo
de mais uma alta. Porque todos os dias precisamos decidir
se repassamos a elevação, e perdemos vendas,
ou absorvemos o custo maior, e reduzimos ainda mais nossas
margens.
Como
falar em preços abusivos nos postos, se o anidro
saiu de R$ 0,8023, por litro, em junho do ano passado, para
R$ 2,726 agora em abril? Houve distribuidora regional que
pagou R$ 3,00 por litro para não ficar sem anidro.
Por que o Ministério Público não pede
as planilhas de custos das usinas para averiguar os motivos
dessa disparada?
Na
quinta-feira, a presidenta Dilma Rousseff ampliou em dois
pontos, para 18% a 25%, a banda do anidro na gasolina. Um
recado claro aos usineiros, embora tímido, pois o
governo poderia ter sido mais contundente, baixando ainda
mais o limite inferior da banda. Na mesma Medida Provisória,
o governo passou à ANP o controle sobre a cadeia
do etanol, o que irá ajudar a combater importantes
problemas no setor, como a imensa sonegação
que existe hoje na comercialização deste biocombustível.
Mas
isso não basta. Se o governo realmente decidir reduzir
o percentual de anidro na gasolina, a Petrobras terá
que importá-la e, lá fora, ela está
cerca de 20% acima do preço praticado aqui, e o governo
não quer nem pensar em autorizar um reajuste. Bem
ou mal, o elevado preço do anidro, atualmente, é
um problema/custo das distribuidoras, postos e consumidores.
Se importar gasolina mais cara, e o governo não permitir
um reajuste, a Petrobras terá que internalizar esse
custo? Na verdade, sem a ameaça da concorrência
da gasolina, os usineiros sentem-se livres para cobrar o
quanto quiserem pelo etanol.
Por
fim, gostaria de ver algumas questões respondidas.
1)
Prezados usineiros, se os senhores já sabiam estar
descapitalizados desde a crise de 2008, por que continuaram
insistindo para o governo abrir mercados? Atribuir a alta
do produto à explosão da demanda é
simplista. Afinal, os números recordes da Anfavea
não permitem a ninguém alegar que foi pego
de surpresa pelo consumo dos veículos flex;
2)
Caras distribuidoras, por que não estabeleceram contratos
de longo prazo com as usinas, de forma a garantir preços
melhores (e produto) durante a entressafra, ao invés
de preferir apostar no custo de oportunidade e comprar mais
barato de unidades produtoras em dificuldades financeiras?;
3)
Caríssimos Haroldo Lima, diretor-geral da ANP, e
Edison Lobão, ministro de Minas e Energia, as informações
das notas fiscais de aquisição dos postos
estão disponíveis no site da Agência,
basta olhar os números. Por que não adotar
as mesmas exigências para as distribuidoras e –
agora, com os novos poderes da ANP - também para
as usinas? De forma a termos um panorama mais real e completo
dos custos da cadeia e, assim, saber quem anda realmente
praticando preços abusivos?
Não
são perguntas difíceis de responder. Entretanto,
é muito mais fácil dizer que a alta nos preços
se deve à especulação nos postos.
*
Paulo Miranda Soares é presidente da Federação
Nacional do Comércio de Combustíveis e de
Lubrificantes (Fecombustíveis).