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Os Biocombustíveis
Fonte:
Branca M. O. Medina - branca@biologo.com.br. Bióloga
licenciada e bacharel em ecologia pela UFRJ e mestre em
ecologia, conservação e manejo da vida silvestre
pela UFMG.
O
debate sobre o uso de biocombustíveis está
cada vez mais em voga, pois é sabido, com muita clareza,
que os combustíveis fósseis, os mais utilizados,
são finitos e as reservas terrestres só tendem
a diminuir e terminar, sem renovação. Além
disso, são extremamente poluidores e causam sérios
desequilíbrios no ambiente.
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Mas o que seriam
os biocombustíveis? São materiais
biológicos que, quando em combustão, possuem
a capacidade de gerar energia para realizar trabalhos. É
certo que praticamente todo material biológico gera
energia, a fruta que comemos, a planta que queima.
Mas aqui vou me concentrar naqueles com potencial combustível
de interesse econômico - a energia para queimar é
inferior à energia que gera posteriormente - e suas
conseqüências ao ambiente.
O tipo mais difundido de biocombustível no Brasil
é o álcool proveniente da cana-de-açúcar.
Sua principal vantagem é a menor poluição
que causa, em comparação aos combustíveis
derivados do petróleo. A cana é um produto
completo porque produz açúcar, álcool
e bagaço, cujo vapor gera energia elétrica.
Contudo, possui diversas desvantagens, como o fato de não
resolver o problema da dependência do petróleo,
devido à inflexibilidade no refino do mesmo.
O álcool proveniente da cana-de-açúcar
tem sido o biocombustível número 1 na política
brasileira de incentivo a energias alternativas ao petróleo.
O mais grave do pro-álcool – no início
de sua implantação – talvez tenha
sido a necessidade de se utilizar um motor específico
que não permite a utilização alternada
entre álcool e gasolina, quando for interessante.
Tal fato, hoje em dia, foi 'contornado' com o advento dos
motores "bioflex" – motores que têm
a capacidade de ser reabastecido e funcionar com mais de
um tipo de combustível, tanto os derivados de petróleo
como os biocombustíveis.
Ainda há a questão ambiental. Com o estímulo
ao pró-álcool, grande área de Mata
Atlântica foi substituída por plantações
de cana-de-açúcar, particularmente no nordeste
brasileiro. Isto acarretou graves problemas climáticos
e edáficos, com elevação das temperaturas
e da erodibilidade dos solos. Tanto que muitos usineiros
agora têm preocupação em proteger os
fragmentos que restam e recuperar áreas degradadas.
Até porque hoje em dia o álcool não
está dando um lucro satisfatório, como antigamente...
Já o biodiesel, ou seja, óleo virgem derivado
de algumas espécies de plantas, apresentam vantagens
muito interessantes, como a possibilidade real de substituir
quase todos os derivados do petróleo sem modificação
nos motores, eliminando a dependência do petróleo.
Além de ser naturalmente menos poluente, o biodiesel
reduz as emissões poluentes dos derivados de petróleo
(em cerca de 40%, sendo que seu potencial cancerígeno
é cerca de 94% menor que os derivados do petróleo),
possui elevada capacidade de lubrificar as máquinas
ou motores reduzindo possíveis danos, é seguro
para armazenar e transportar porque é biodegradável,
não-tóxico e não explosivo nem inflamável
à temperatura ambiente, não contribui para
a chuva ácida por não apresentar enxofre em
sua composição, permite dispensar investimentos
em grandes usinas, ou linhas de transmissão, para
atendimento local de energia em regiões com pequena
demanda.
As plantas mais utilizadas atualmente para produção
do biodiesel são a soja, a colza, o pinhão
manso, mamona, dendê, girassol e macaúba. As
mais produtivas são o dendê (Elaeis guineensis)
e a macaúba (Acrocomia aculeata - típica
do litoral brasileiro), confirmando a potencialidade das
palmeiras.
A soja (Glycine Max) é a mais utilizada
nos EUA, onde também é comum misturar com
restos de óleos usados para fritura.
A colza (Brassica napus) é a principal planta estudada
e plantada para este fim na União Européia.
Existem outras muito produtivas, como a castanha do Pará,
o coco e a copaíba, porém outros derivados
seus são mais interessantes economicamente.
Tendo em vista tantas vantagens, o governo brasileiro têm
estimulado a produção e comercialização
do biodiesel, sendo o marco principal a publicação
do Decreto No. 5.488, em 20 de maio de
2005, que regulamenta a Lei 11.097 (janeiro/2005).
Essa lei dispõe sobre a introdução
do biodiesel na matriz energética brasileira. Inicialmente
a proporção autorizada é 2% do diesel
comum até 2008, 5% até 2013 e já é
pensado 20%, sendo que nos Estados Unidos, os automóveis
movidos com 100% de biodiesel têm apresentado rendimentos
surpreendentes.
A política brasileira prevê o incentivo à
produção da mamona no Nordeste e no Bioma
Caatinga como um todo, do dendê no Norte e Amazônia
e da soja no Cerrado, Sul e Sudeste. O maior problema está
no fato de serem plantas exóticas, sendo que a macaúba,
o buriti (Maurutia fexuosa), o pinhão manso
(Jatropha curcas) e o babaçu (Ricinus
communis), todas nativas, apresentam grande potencial,
só não sendo mais produtivas que o dendê,
o qual ainda tem a vantegem de apresentar baixo custo de
produção (custa cerca de um terço do
óleo diesel europeu). Todavia, o conhecimento sobre
a cultura das nativas ainda é incipiente e a tecnologia
para utilização precisa de muitos estudos
para ser mais viável economicamente. Ao contrário,
as exóticas são mais conhecidas, suas culturas
já são dominadas agronomicamente e existem
muitos estudos publicados.
A mamona, além de ser menos produtiva do que todas
essas nativas, possui muitas exigências de solo (irrigação
e adubação), o que causa muitas modificações
sérias no ambiente, não sendo portanto a mais
indicada para a região Nordeste e Caatinga. Seria
mais eficiente utilizar o pinhão manso, que é
mais adaptado ao semi-árido nordestino. O pequi também
poderia ser uma boa opção pela alta produtividade,
mas não deve ser viável economicamente já
que é uma arbórea de crescimento lento.
Substituir o que resta dos biomas brasileiros por mais monoculturas
de plantas exóticas, existindo altos potenciais nativos,
não parece ser a estratégia mais eficiente
para levar o Brasil crescentemente à independência
ao petróleo, à melhor contribuir para o controle
das mudanças climáticas e para a preservação
ambiental. A melhor saída seria estimular sistemas
agro-florestais consorciando nativas e exóticas (a
serem substituídas à medida que os estudos
sobre as nativas, e a tecnologia associada, avancem), arbustos,
árvores e palmeiras.
Leitura Sugerida:
Arbix, G. et al. 2004. Biocombustíveis.
Cadernos NAE, número 2. Núcleo de Assuntos
Estratégicos da Presidência da República,
Secretaria de Comunicação do Governo e Gestão
Estratégica.
Sá, H. Biocombustíveis -
Álcool, Óleos e Gorduras-Biodiesel.
http://www.ambientebrasil.com.br/composer.php3?base=./energia/index.html&conteudo=./energia/artigos/biocombustivel.html
Pombo, L. 2005. Brasil se prepara para
produzir biocombustível. Folha de São Paulo
16/08/2005. http://www.biodieselbrasil.com.br/clip2005/agosto/clipping215bb-170805.html
Faupel, K. & Kurki, A. 2002. Biodiesel:
a brief overview. Attra: 1-8
(http://www.attra.ncat.org/attra-pub/PDF/biodiesel.pdf
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