Governo anunciará crédito e obras para evitar greve de caminhoneiros

16/04/2019 – Após reuniões entre ministros e técnicos, o governo decidiu montar um pacote de ações para evitar nova greve dos caminhoneiros. Entre as medidas estão a construção de locais de repouso em estradas, a melhoria da infraestrutura de rodovias, uma linha de crédito do BNDES e o aumento da fiscalização do cumprimento da tabela do frete. O Palácio do Planalto ainda avalia se vai liberar o reajuste de 5,7% do diesel, suspenso pela Petrobras na quinta-feira passada após ordem do presidente Bolsonaro, que se reúne hoje com a presidência da estatal.

Enquanto não chega a uma solução para o impasse em torno do preço do diesel, o governo anunciará hoje um pacote de medidas que representa um aceno aos caminhoneiros e busca dispersar qualquer possibilidade de uma nova greve da categoria. As ações incluem, entre outras coisas, aumento da fiscalização do cumprimento da tabela do frente, construção de locais de repouso nas rodovias com pedágio, lançamento de uma linha de crédito do BNDES e a conclusão de obras de infraestrutura nas principais rodovias nacionais, como a BR-163, que liga o Pará ao Rio Grande do Sul, e a BR-142, da Bahia ao Mato Grosso.

As medidas em estudo incluem ainda incentivos a cooperativas de caminhoneiros, medidas para desburocratizar a obtenção de documentos e o Cartão Caminhoneiro, que já havia sido anunciado. O sistema deve entrar em funcionamento em 90 dias e permitiria que o motorista comprasse antecipadamente até 500 litros. O combustível poderá ser usado conforme a necessidade do motorista. A ideia é tentar se proteger das oscilações do preço do petróleo no mercado internacional.

O Planalto também avalia garantir aos caminhoneiros um controle maior do que o próprio presidente chama de “indústria da multa dos pardais”. No fim de março, Bolsonaro anunciou em sua rede social o cancelamento da instalação de mais de 8 mil radares eletrônicos em estradas do paí seque os contratos serão revisados para se ter certeza de sua real necessidade.

‘PETROBRAS É LIVRE’

De tarde, as medidas favoráveis aos caminhoneiros foram a pauta de um encontro que contou com os ministros da Casa Civil, Onyx Lorenzoni; da Economia, Paulo Guedes; da Infraestrutura, Tarcísio Gomes; de Minas e Energia, Bento Costa; da Secretaria de Governo, Santos Cruz; e da Secretaria Geral, Floriano Peixoto; além do presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco; do diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo, Décio Oddone; e, por meio de videoconferência, do presidente do BNDES, Joaquim Levy.

Chegou a ser cogitada uma mudança na periodicidade do reajuste do diesel, que poderia passar a ser mensal. Até a noite de ontem, porém, não havia definição se a medida seria levada adiante. Esta alternativa desagrada à equipe econômica, que defende um caminho de não intervenção nos preços da Petrobras. Em março, a Petrobras já havia modificado o intervalo mínimo previsto entre revisões de preço para 15 dias. Hoje, Bolsonaro deve discutir com o presidente da Petrobras, ministros e técnicos, uma solução para o preço do combustível.

Na semana passada, a estatal suspendeu um reajuste de 5,7% após um telefonema de Bolsonaro. Somente na sexta-feira, a estatal perdeu R$ 32 bilhões em valor de mercado na Bolsa, com a interpretação de que se tratava de uma intervenção na política de preços da companhia. Ontem, as ações da companhia fecharam quase estáveis, com leve queda de 0,07% no caso dos papéis ordinários (com voto).

Após a repercussão negativa no mercado do episódio, integrantes do Planalto adotaram o discurso de que a decisão de segurar o reajuste foi da própria estatal. E asseguraram que as soluções apresentadas não têm como foco dispersar possíveis focos de greve.

Após a reunião de ontem, o presidente da Petrobras disse que a empresa é livre para tomar suas decisões e evitou comentar se o aumento poderia ser aplicado nos próximos dias.

— Petrobras é uma coisa. Outra é o governo. O governo quer abordar a questão dos caminhoneiros. A Petrobras tem sua vida própria — disse Castello Branco. — Vamos decidir quanto vai ser reajustado, ou não. É uma decisão empresarial. Diferentemente da decisão do governo, que é de políticas públicas. A Petrobras é livre.

O executivo evitou comentar se aperiodicidade do reajuste poderia ser mensal, limitando-se a dizer que se trata de “decisão operacional ”. E negou que tenha havido uma intervenção do governo na política de preços da companhia.

— Não (é intervenção), porque a decisão foi tomada pela diretoria da Petrobras. Não foi… ninguém ordenou à Petrobras que reajustasse —frisou.

‘NÚMEROS NA MESA’

Segundo fontes a par das discussões, a Petrobras poderia segurar por mais tempo o reajuste do diesel se forem mantidas as cotações atuais do câmbio e do barril de petróleo. O tema central da reunião foi a busca de soluções para os caminhoneiros.

—A estatal poderia segurar por até mais duas semanas devido a ações de hedge (proteção) —disse uma fonte.

De acordo com um dos participantes do encontro, o governo quer que as regras já anunciadas para a categoria sejam postas em prática. Um dos tópicos discutidos foi um frete mínimo para a categoria, um dos pontos que deverão ser analisados.

Segundo a deputada Joice Hasselmann (PSL-SP), líder do governo no Congresso, o presidente quer colocar “todos os números na mesa” para saber se o reajuste do diesel é justo ou não. Ele estaria preocupado como tamanho do aumento em relação à inflação.

—Vocês podem ter essa certeza, não haverá política intervencionista nesse governo —disse Joice, que não descartou a hipótese de nova paralisação. — Risco de tudo sempre há nesse país, né? Eu vejo que o presidente está tratando com cuidado isso, achoque o presidente sabe o que faz.

Fonte: O Globo