Bolsonaro quer privatizar partes da Petrobras

20/11/2018

Escolha pessoal do futuro ministro da Economia, Paulo Guedes, para presidir a Petrobras, o economista Roberto Castello Branco, ex-Vale, deve intensificar a venda de ativos da estatal. O presidente eleito, Jair Bolsonaro, afirmou já ter conversado com ele sobre essa possibilidade. “É uma empresa estratégica que pode ser privatizada em partes, sim”, disse Bolsonaro. Seu vice, Hamilton Mourão, indicou que os setores de refino e distribuição podem ser vendidos. Castello Branco afirmou que a privatização integral da Petrobras “não está em discussão” e disseque o foco da empresa na sua gestão será o aumento da produção de petróleo.

Com a escolha do economista Roberto Castello Branco para presidir a Petrobras — uma decisão pessoal do futuro ministro da Economia, Paulo Guedes —a estatal deve intensificar a venda de ativos. O presidente eleito, Jair Bolsonaro, afirmou ontem que mantém conversas com Castello Branco sobre a possibilidade de privatizar partes da empresa:

— Estou conversando com ele. Não sou uma pessoa inflexível, mas temos que, com muita responsabilidade, levar um plano como esse aí. Vi lá atrás com bons olhos a questão da Embraer. Então, podemos conversar. Entendo que é uma empresa estratégica que pode ser privatizada em partes, sim.

Em junho, Castello Branco defendeu a privatização da própria Petrobras e de outras estatais em artigo publicado na Folha de S.Paulo, mas ontem descartou essa hipótese. Após o escândalo de corrupção revelado pela Operação Lava-Jato, a Petrobras foi obrigada a iniciar um amplo programa de venda de ativos para equacionar suas contas e reduzir seu endividamento. Entre as alternativas estudadas em setores como refino, distribuição, gasodutos, fertilizantes,

“Não sou uma pessoa inflexível, mas temos que, com responsabilidade, levar um plano como esse aí. Então, podemos conversar. Entendo que é uma empresa estratégica que pode ser privatizada em partes, sim” Jair Bolsonaro, presidente eleito

entre outros, a Petrobras passou abuscar sócios estratégicos ou vendas de participações. As declarações dadas pelo novo governo indicam que a saída de atividades que vão além da exploração e produção de petróleo, o negócio central da companhia, deve ganhar fôlego.

— O núcleo duro da Petrobras, a prospecção, onde estão a inteligência e o conhecimento, isso não vai ser privatizado. Agora, podemos negociar distribuição e refino. Isso pode ser negociado— afirmou o vice-presidente eleito, general Hamilton Mourão, após participar de reuniões no Centro Cultural Banco do Brasil.

CARTA BRANCA PARA GUEDES

Um dos primeiros desafios com os quais Castello Branco deve se deparar à frente da com panhi aéa defesa da política de preços da estatal. Em 31 de dezembro, está previsto o fim da política de subsídio ao óleo diesel, adotada pelo governo para encerrar às pressas a greve dos caminhoneiros, em maio. Desde então, a Petrobras pratica preço com desconto para o diesel (mediante ressarcimento) e repassa para o valor cobrado da gasolina nas refinarias a flutuação das cotações do petróleo e do dólar. Um mecanismo d eh edge( proteção) fez com que os repasses deixassem de ser praticamente diários, o que permite intervalos de até 15 dias.

A adoção de uma política de preços própria foi considerada um divisor de águas para o mercado financeiro, que penalizava as ações da estatal em razão da interferência da União. No passado, o governo represava o aumento dos combustíveis para evitar impacto na inflação.

Ontem, Bolsonaro disse que está conversando com Guedes e Castel lo Branco sobre apolítica de preços. Ele ressaltou que onovop residente da Petrobras foi uma escolha pessoal de Guedes. O futuro ministro da Economia chegou afazer elogios ostensivos ao atual comandante da estatal, Ivan Monteiro, mas queria contar com Castel lo Branco, que ajudou o economista na preparaçãode proposta para as privatizações, em um posto-chave.

Com passagens pelo Banco Central e pela Vale, o economista tem visão alinhada com ade Guedes. Os dois estudaram na Universidade de Chicago, um dos principais celeiros do pensamento neoliberal.

—O Castello Branco é uma indicação do Paulo Guedes. Estou dando carta branca para ele para tudo que é envolvido com economia. Estamos cobrando proatividade, enxugara máquina e fazê-la funcionar para a nossa população. Alguma coisa você pode privatizar, não toda. É uma empresa estratégica, e nós estamos conversando sobre isso aí —disse Bolsonaro.

Fontes ligadas à Petrobras elogiaram a escolha de Castello Branco, que já fez parte do Conselho de Administração da companhia em 2015. Aos 74 anos, Castello Branco ocupa atualmente o cargo de diretor do Centro de Estudos em Crescimento e Desenvolvimento da Fundação Getulio Vargas (FGV). Economista com pós-doutorado na Universidade de Chicago, ele também desenvolveu projetos de pesquisa na área de petróleo e gás. Em 1985, durante o governo de José Sarney,f oi diretor do Banco Central. E passou 15 anos na mineradora Vale.

O executivo é conhecido como forte defensor da política de corte de custos, inclusive de benefícios. As divergências sobre a condução da companhia teriam levado à saída do conselho da estatal, que er apres idi daà época por AldemirBen dine, indicado pela então presidente Dilma Rousseff.

—Ele está alinhado coma atual política da companhia, que prevê a venda de ativos e a gestão independente dos preços dos combustíveis — disse uma fonte que já trabalhou com ele na Petrobras.

No mercado financeiro, areação inicial foi de surpresa, pois havia expectativa de que Ivan Monteiro permanecesse à frente da empresa. Ainda assim, as ações preferenciais (sem voto) da Petrobras avançaram 0,77%. As ordinárias fecharam perto da estabilidade, com queda de 0,07%.

MONTEIRO PODE IR PARA O BB

Com a troca no comando da Petrobras, Monteiro deve ocupar outro posto-chave: o comando do Banco do Brasil. Bolsonaro afirmou ontem que não há decisão tomada, mas que esta é uma alternativa viável para o executivo.

Segundo fontes próximas da equipe econômica, Guedes ficou impressionado com Monteiro e coloca em sua conta a reestruturação da Petrobras. O futuro ministro teria inclusive recebido pedidos de dentro da empresa para que ele permanecesse no cargo.

Guedes chegou a sondar executivos de bancos privados, mas havia resistência dos funcionários a aceitar um novo presidente de fora da empresa. Monteiro deixou o BB para ocupar uma diretoria na Petrobras junto com Bendini.

Outro nome que aguarda espaço de destaque na área econômica é o do economista Rubem Novaes (ex-diretor do BNDES e professor da FGV). O ex ecu tivoécot ad opara assumira presidência da Caixa Econômica Federal. Outro nome cogitado para ocargoé Pedro Guimarães( Brasil Plural ), especialista em privatizações. Ono medo atual presidente da Caixa, Nelson de Souza, também continua em análise.

Na Esplanada, um dos ministérios que ainda não foram definido sé ode Minas e Energia. No momento, pelo menos três nomes aparecem como mais cotados para ocupar o posto, que pode ser anunciado nesta semana. Com simpatia de Guedes e do general Mourão, um dos citados pela e quipede transiçãoéo engenheiro Paulo Pedrosa— ex-secretário-executivo da pasta. Ou trono meéo do consultor Adriano Pires, especialista em petróleo.

Quem faz a defesa de Pires no governo de transição é principalmente o futuro ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni. O atual ministro da pasta, Moreira Franco, também gosta de Pires. Há um terceiro cogitado para uma vaga no Ministério de Minas e Energia: o professor da área de energia Luciano Castro. Ele está na e quipede Bolso na rodes de a campanha, na coordenação da área de energia elétrica, e tem cargo na transição.

Fonte: O Globo