Negociação direta com indústria evita fechamento de lojas

14/10/2018

Pequenas e médias varejistas em dificuldades estão recorrendo aos fornecedores, em vez de ir aos bancos, para não cair na inadimplência e manter as portas abertas. O setor produtivo já tem profissionais para avaliar riscos de um acordo financeiro na negociação direta para parcelar ou adiar pagamentos.
Numa via que corre em paralelo ao caminho das recuperações judiciais e extrajudiciais, pequenas e médias empresas com dificuldade de caixa estão recorrendo à sua rede de fornecedores como fonte de financiamento para manutenção de suas atividades. Alternativa à inadimplência formal ou mesmo ao fechamento do negócio, esses comerciantes discutem diretamente com a indústria o parcelamento ou o adiamento de pagamentos e débitos. A arrancada nesse movimento tem como pano de fundo a crescente inadimplência de micro e pequenas empresas no país. Em agosto, havia 5,27 milhões desses negócios com dívidas em atraso, 10,2% mais que um ano antes e patamar recorde, segundo a Serasa Experian. O setor produtivo já conta com profissionais para avaliar o perfil da clientela e ponderar o risco de um acordo financeiro que, na prática, ajuda as duas partes: o cliente preserva sua operação, e a indústria mantém suas máquinas produzindo, afirmam especialistas e empresários, apontando situação mais difícil no Estado do Rio.

— O problema é maior no Estado do Rio, onde falta dinheiro às pessoas inclusive para comprar alimentos. O peso do Rio nas nossas vendas encolheu de 30% para 25%. Os pequenos varejistas estão fazendo um tipo de recuperação negociada com fornecedores. Com menor poder de barganha junto aos bancos, vão direto à indústria, porque estão sem condições de pagar, mas precisam manter as compras —conta o diretor de um fabricante de produtos de limpeza instalado no Rio.

No varejo de alimentos, por exemplo, grandes supermercadistas locais obtêm melhores negociações de preço com a indústria, o que permite promoções e preço melhor ao consumidor, garantindo vendas. A maior aproximação do varejo com a indústria, diz Fábio Queiroz, presidente da Asserj, que reúne os supermercados do Estado do Rio, é um legado da crise, mas tem diferentes vertentes:

— A margem de lucro no setor é muito pequena, de 2% a 3%. Na crise, fica mais apertada. Um erro de gestão ou perda relevante de vendas pode ser fatal. Muitos pequenos empresários se unem em redes de compras coletivas, por exemplo. Mas os menores, em dificuldade, têm de parcelar débitos. É uma negociação para não matar o negócio e fomentar a atividade industrial. O varejo de alimentos registrou 1.644 novos negócios de janeiro a agosto em todo o país, segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC). No Rio, o saldo (diferença entre aberturas e fechamentos) é de menos 37. Só no segmento de minimercados, mercearias, lojas de conveniência e armazéns, o avanço já é de mais 332 negócios no país de janeiro a agosto. Já o Rio perdeu 132 no mesmo período.

— No varejo de alimentos, há um processo de concentração de receita na direção dos grandes estabelecimentos. Houve fusões importantes no mercado fluminense. E certamente as grandes redes passaram atermais poder de barganha coma indústria, deixando os pequenos empresários em situação mais difícil — avalia Fábio Bentes, da Confederação Nacional do Comércio (CNC), destacando que a participação do pequeno estabelecimento no varejo fluminense caiu de 52,2%, em 2013, para 50,1%, em 2017.Definir imagem destacada

BENS COMO GARANTIA

Pequenos varejistas apelam até para soluções informais diante do aperto, disse Leonardo Coelho, diretor da consultoria Alvarez & Marsal. Com a lentidão do consumo, diz ele, muitos lojistas já esgotaram os expedientes tradicionais de levantar dinheiro, como antecipar os valores pagos via cartão de crédito ou usar seus recebíveis como garantia para obter crédito. Pequenos lojistas têm apelado então para a oferta de bens como garantia para compras. —Tem havido muito “calote negociado”. No segmento de vestuário, há varejistas com pagamentos atrasados. Como o revendedor sabe que roupas caducam com o tempo, ele aceita isso com menos gritaria, confiante de que as vendas de fim de ano vão proporcionar liquidez aos lojistas —explicou Coelho. Thiago Berka, da Associação Paulista de Supermercados (Apas), explica que em São Paulo o setor já registra crescimento desde o ano passado. As pequenas redes, contudo, foram afetadas pela crise e registram queda em vendas. Na capital, elas sofrem uma concorrência mais acirrada de grandes redes, que criaram minimercados e lojas de bairros, e de atacarejos. Dados da Associação Brasileira da Indústria de Alimentação (Abia) mostram que as vendas recuaram nos anos de recessão, com quedas de 2,81% e 1,04% em 2015 e 2016, respectivamente. Ano passado, houve avanço de 1,78%. Em 2018, até agosto, há expansão de 0,42%.

Fonte: O Globo